Os resultados, apresentados no Congresso de Oncologia de Berlim e publicados na revista científica Nature, mostraram que a exposição recente às vacinas provoca uma forte resposta imunológica do tipo interferon, que auxilia o corpo a reconhecer e atacar células cancerígenas — um fenômeno descrito pelos autores como uma espécie de “reinicialização” do sistema imune.
Ganhos expressivos de sobrevida
O estudo analisou dados de mais de 880 pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas (NSCLC) e melanoma metastático tratados entre 2015 e 2022. Pacientes vacinados até 100 dias antes ou depois do início da imunoterapia tiveram ganhos expressivos:
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Câncer de pulmão: sobrevida mediana passou de 20,6 para 37,3 meses.
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Taxa de sobrevivência em três anos: aumentou de 30,8% para 55,7%.
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Melanoma metastático: risco de morte reduziu em quase 60%.
Esses efeitos não foram observados em pacientes que receberam vacinas contra gripe ou pneumonia, o que reforça que o impacto é específico da tecnologia de mRNA.
“A vacina desperta o sistema imune”
Segundo o oncologista Stephen Stefani, da Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, a descoberta mostra que a vacina de mRNA pode modificar o microambiente tumoral, tornando as células cancerígenas mais visíveis para as defesas do corpo.
“A vacina aumenta a expressão de uma proteína chamada PD-L1, que normalmente camufla o tumor. Isso faz com que as drogas imunoterápicas, como o pembrolizumabe, atuem de forma mais eficaz. É como se a vacina ajudasse o sistema imune a enxergar melhor o inimigo”, explicou Stefani.
Nos testes com camundongos, os pesquisadores observaram que a resposta inflamatória gerada pela vacina torna tumores “frios” — pouco infiltrados por células de defesa — em tumores “quentes”, mais sensíveis às drogas de bloqueio imunológico.
Um novo horizonte na oncologia
Os cientistas ressaltam que as vacinas da Covid-19 não tratam o câncer, mas que o mecanismo de ação do mRNA pode ser explorado como potente modulador imune para potencializar a eficácia da imunoterapia.
“Esse trabalho abre uma nova avenida para a oncologia de precisão”, afirmou Stefani. “No futuro, poderemos ter vacinas de mRNA projetadas não só para vírus, mas também para reprogramar o sistema imune e ajudar no combate ao câncer.”
O estudo representa um marco no entendimento da interação entre vacinas, imunidade e câncer, e pode servir de base para o desenvolvimento de novos protocolos terapêuticos personalizados em oncologia.