Universidade de Oxford aponta 1º remédio capaz de reduzir mortes por Covid-19

Por: Rádio Sampaio com G1
 / Publicado em 16/06/2020

imagem ilustrativa

Pesquisadores da Universidade de Oxford anunciaram, nesta terça-feira (16), que um corticoide barato e de uso amplo teve eficácia em casos severos de Covid-19, diminuindo a taxa de mortalidade de pacientes intubados em um terço.

O remédio, entretanto, não mostrou benefícios em pacientes que não precisaram de suporte de oxigênio. Ou seja, não se mostrou eficaz em casos leves e nem como prevenção.

A que classe pertence o remédio? Como ele age?

A dexametasona é um corticoesteroide, que age como um anti-inflamatório e imunossupressor (ele inibe a ação do sistema imunológico). Essa diferença nos modos de ação se dá de acordo com a dose.

Que doenças são tratadas com ele?

Dois exemplos são o lúpus e a artrite reumatoide, doenças autoimunes – tipo de doença em que o sistema imunológico ataca o próprio corpo.

Mas, na maioria das vezes em que é indicado, o remédio NÃO é usado sozinho, segundo especialistas. Ele age junto com antibióticos, antivirais ou antiparasitários.

Ele tem efeitos colaterais?

SIM: os corticoesteroides podem piorar quadros como diabetes e osteoporose, afirma a infectologista Rosana Richtmann, do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo. Por isso, é importante que as pessoas NÃO se automediquem com a substância, lembra a especialista.

O médico Luciano Azevedo, do Hospital Sírio-Libanês, reforça a recomendação.

"Toda vez que a gente divulga uma pesquisa como essa, acaba gerando uma corrida às farmácias e as pessoas acabam querendo tomar até como prevencção. Não faz o menor sentido usar o corticoide nem como prevenção nem para pacientes em estado leve. Se tiver alguma indicação, é para os pacientes em estado grave, que pecisam de oxigênio ou de respirador artificial", destaca.

Por que ele funcionou contra a Covid-19?

Ainda não se sabe em detalhes, porque os especialistas de Oxford não detalharam os resultados do estudo. Em teoria, um anti-inflamatório poderia ajudar a reduzir a inflamação nos vasos sanguíneos que é causada pelo vírus da Covid-19. Mas isso é apenas teoria e não foi esclarecido, destaca o infectologista Jamal Suleiman, do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo.

Sars-CoV-2 causa a chamada "tempestade de citocinas", que é uma reação inflamatória grave do corpo por uma reação exagerada na luta contra o vírus.

Da mesma forma, não é possível saber, ainda, na opinião do médico, por que a droga só teve eficácia em casos severos da doença. "Existe um critério de gravidade ainda não muito claro. Por isso é importante que publiquem [o estudo]", diz Suleiman.

"O corticoide age reduzindo a inflamação generalizada que o Covid pode causar", explica o médico Luciano Azevedo, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

"Quanto mais grave o doente estiver, maior é o risco de ele desenvolver essa inflamação, e maior é a chance de o corticoide fazer efeito, porque ele age diminuindo essa inflamação. Se você tem um caso de Covid leve, não faz sentido usar esse medicamento, porque não tem tanta inflamação assim que o corticoide consiga combater", afirma.

"Uma das reações mais importantes no desenvolvimento da infecção por este novo coronavírus no corpo é uma reação inflamatória acentuada", explica Mariângela Simão, diretora-geral assistente para Acesso a Medicamentos, Vacinas e Produtos Farmacêuticos da Organização Mundial da Saúde (OMS).

"Então, é esperado que um anti-inflamatório possa ajudar os casos ao diminuir a capacidade do corpo de fazer uma hiper-reação inflamatória, que é o que tem causado a maior parte das complicações do vírus", esclarece Simão.

"Os corticoesteroides, particularmente o corticoesteroide que o estudo demonstrou, vai dimiuir esta hiperinflamação; com isso, faz com que esta hiperinflamação cause menos dano e que haja uma melhor chance de sobrevida".

O que é a tempestade de citocinas?

É um processo inflamatório desencadeado pela presença do vírus, também chamado de "cascata inflamatória", explica Suleiman. Esse processo ocorre quando o corpo sofre qualquer tipo de agressão – ou quando tem uma doença autoimune, por exemplo. No caso do coronavírus, esse processo ocorre de forma muito grave.

"No momento que é agredido, o corpo produz substâncias para tentar se defender – isso inclui uma batida, por exemplo, quando a pessoa bateu a perna numa quina. Nesse local onde ocorre o trauma, você começa a produzir substâncias para tentar se defender que são pró-inflamatórias", explica o infectologista.

O desfecho das inflamações, entretanto, é diferente conforme o dano sofrido: uma pancada ou, no caso da Covid-19, um vírus. Também muda conforme o vírus causador da doença. "Vários fatores podem desencadear esse processo. Nesse caso especial, é esse vírus", diz Suleiman.

"O que está acontecendo nos pulmões em alguns pacientes é que há uma super-reação inflamatória. Então, em vez de ajudar o paciente, ela destrói o pulmão", explica Mariângela Simão. "Ela faz com que os pulmões fiquem incapazes de fazer as trocas de oxigênio.

O remédio já está sendo usado no Brasil?

Segundo a infectologista Rosana Richtmann, também do Emílio Ribas, os protocolos de tratamento de pacientes graves no Brasil já incluem algum tipo de corticoide.

A novidade do estudo de Oxford é a dose, por ser mais baixa que as que já vinham sendo usadas, afirma a médica. Em doses altas, os corticoides podem ser um "tiro no pé", diz Richtmann, por inibirem a resposta imune.
Nesta terça (16), a Sociedade Brasileira de Infectologia emitiu uma recomendação para que todos os pacientes com Covid-19 em ventilação mecânica e os que necessitam de oxigênio fora da UTI recebam a dexametasona por via oral ou endovenosa, na dose de 6mg, uma vez ao dia por 10 dias.

Segundo o pesquisador Luciano Azevedo, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, os corticoides estão sendo estudados pela Coalizão Covid-19 Brasil, grupo que busca tratamentos para a Covid-19. Ele explica que esse tipo de medicamento já era usado em pacientes com outras doenças pulmonares graves. Os resultados do estudo devem ser divulgados em cerca de um mês e meio.

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