Quem é o 'Bolsonaro chileno' que disputará Presidência contra comunista no Chile

Por: Rádio Sampaio com SBT News
 / Publicado em 17/11/2025

Com 59 anos de idade e uma agenda centrada em questões de segurança, José Antonio Kast busca alcançar o topo do poder no Chile. — Foto: Marvin Recinos/AFP/Getty Images via BBC

José Antonio Kast passou para o segundo turno das eleições presidenciais do Chile (16), neste domingo com 24% dos votos, representando a oposição de direita. Na segunda volta, ele enfrentará candidata do partido no poder, a comunista Jeannette Jara, que obteve 26%.

Kast afirmou no domingo que deseja unificar os votos da oposição e já recebeu o apoio da direita representada por Johannes Kaiser e Evelyn Matthei, que juntos somaram 27% dos votos neste domingo.

Kast concorreu inicialmente à Presidência em 2017, quando ficou em quarto lugar com apenas 8% dos votos.

Ele tentou novamente em 2021 e venceu o primeiro turno, mas perdeu o segundo turno com 44% dos votos para o atual presidente de esquerda Gabriel Boric, que obteve 56%.

Resta saber se, no caso de Kast, "a terceira é a vez", como ele mesmo afirmou no encerramento da sua campanha na semana passada.

Mas uma coisa parece certa: este advogado católico e conservador já contribuiu para transformar a direita tradicional chilena, com uma plataforma que suscita comparações com líderes de outros países, como Donald Trump, Javier Milei, Nayib Bukele e até o brasileiro Jair Bolsonaro.

A referência de Pinochet

Nascido há 59 anos em Paine, um município localizado na região metropolitana de Santiago, Kast é o caçula de dez filhos de um casal de alemães que emigrou para o Chile após a Segunda Guerra Mundial.

O passado de seu pai, Michael Kast, durante esse conflito bélico tem sido motivo de controvérsia.

Kast disse que seu pai se alistou por obrigação no exército alemão para evitar um possível julgamento militar e fuzilamento.

"A história da nossa família é a coisa mais distante que alguém pode imaginar do nazismo", afirmou ele na campanha de 2021.

No entanto, investigações jornalísticas posteriores indicaram que Michael Kast foi membro do partido nazista de Adolf Hitler aos 18 anos, de acordo com um documento de 1942 do Arquivo Federal da Alemanha.

Embora possa haver dúvidas sobre se se trata da mesma pessoa, o local e a data de nascimento coincidem com os do pai do candidato chileno.

Casado com a advogada María Pía Adriasola, pai de nove filhos e próximo do movimento católico conservador Schoenstatt, Kast também rejeitou o rótulo de " direita radical" que costumam lhe atribuir.

No entanto, ele defendeu o regime militar de Augusto Pinochet (1973-1990) e chegou a dizer que, se ele estivesse vivo, teria votado nele.

SANDRA COHEN: Embora vencedora, comunista Jeannette Jara sai em desvantagem para o segundo turno no Chile

Seu irmão mais velho, Miguel Kast, foi ministro e presidente do Banco Central do governo militar, um regime sob o qual ocorreram graves violações dos direitos humanos, como torturas, assassinatos ou desaparecimentos de milhares de pessoas.

Kast negou apoiar esse tipo de abuso, embora também tenha causado polêmica desde sua primeira candidatura presidencial ao afirmar, por exemplo, que "no governo militar, muitas coisas foram feitas pelos direitos humanos de outras pessoas".

Ele também afirmou que, ao contrário do que ocorreu em Cuba, Venezuela e Nicarágua, com Pinochet houve uma "transição para a democracia".

"O que (Kast) valoriza são certos avanços e certo desenvolvimento que ocorreram durante o governo de Pinochet", explica Pérez. "Não há extremismo algum: não há fascismo, nem é antidemocrático, na minha opinião".

Mas, sobretudo para as vítimas do regime de Pinochet, a ascensão política de Kast reavivou fantasmas do passado que pareciam ter desaparecido.

Uma 'nova' direita

A carreira política de Kast começou quando ele estudava na Universidade Católica, onde participou do Movimento Gremial, fundado por Jaime Guzmán, colaborador de Pinochet e redator da Constituição em vigor desde 1980.

Posteriormente, foi vereador e deputado pelo partido de direita União Democrática Independente (UDI), também fundado por Guzmán, que foi assassinado enquanto senador em 1991.

Kast afastou-se da UDI argumentando que devia abandonar o que era "politicamente correto" e fundou o Partido Republicano chileno, pelo qual foi candidato nas duas últimas eleições.

Embora tenha perdido para Boric em 2021, após a eclosão de protestos sociais no país, e sofrido outra derrota eleitoral com a rejeição da proposta de reforma constitucional que promoveu em 2023, sua passagem para o segundo turno das eleições de 14 de dezembro mostra a vigência de seu movimento político.

No primeiro turno de domingo, Kast superou outros dois candidatos que competiam com ele em seu próprio campo ideológico: Johannes Kaiser, que muitos viam como um outsider ainda mais à direita do que ele, e Evelyn Matthei, representante do conservadorismo tradicional chileno.

Agora, seu desafio eleitoral é garantir o voto daqueles que optaram por esses candidatos para alcançar a maioria que lhe escapou em outras ocasiões.

"Kast tentou representar uma direita 'nova', que eu chamo de direita nacionalista populista", afirma Robert Funk, cientista político da Universidade do Chile, à BBC Mundo.

E acrescenta que o candidato "tem tentado, ao longo destes anos, aproximar-se de outros modelos que temos visto em diferentes partes do mundo", como o presidente norte-americano Trump, o argentino Milei, o salvadorenho Bukele e o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán.

Kast parabenizou Trump nas redes sociais pela sua eleição em 2024, afirmando que isso significava "uma nova vitória da liberdade e do bom senso".

Na semana passada, ele disse no último debate entre candidatos que, se o presidente dos EUA lhe dissesse que planeja invadir a Venezuela, ele responderia: "Vá em frente".

Kast propõe liderar um "governo de emergência", com medidas centradas em questões de migração e segurança pública, um tema que, segundo pesquisas, lidera as preocupações dos chilenos, apesar de os índices de violência no país serem menores do que em outros da região.

Propostas

Uma de suas promessas é instalar cercas ou valas nas fronteiras do Chile com a Bolívia e o Peru para impedir a passagem de imigrantes irregulares, como fez o presidente dos EUA na fronteira com o México.

E ele disse que quer gerar mais autodeportações de estrangeiros sem documentos do que Trump.

Kast também defende o modelo de "mão dura" de Bukele, cuja megaprisão em El Salvador visitou no ano passado para conhecer como funciona, apesar das denúncias de violações dos direitos humanos no local.

"Precisamos de mais Bukele e menos Boric", afirmou nesta campanha.

No plano econômico, as propostas de Kast têm semelhanças com as de Milei: ele propõe um ajuste fiscal drástico de US$ 6 bilhões em 18 meses (R$ 31,7 bilhões) sob o slogan de "cortar gastos políticos", apesar das dúvidas sobre sua viabilidade.

Um de seus principais assessores publicou um artigo com expressões próprias do presidente argentino, como "casta política" e "parasitas do Estado", o que gerou descontentamento até mesmo na centro-direita que governou o Chile no passado.

Mas Kast o apoiou e disse que, se tivesse sido ele a escrever essa coluna, "poderia ter sido mais dura".

E em setembro, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado, Kast afirmou que há juízes no Brasil que agem com base em ideologia política.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Contato

Rua José e Maria Passos, nº 25
Centro - Palmeira dos Índios - AL.
(82) 99641-3231
TELEFONE FIXO - ESTUDIO:
(82)-3421-4842
SETOR FINANCEIRO: (82) 3421-2289 / 99636-5351
(Flávia Angélica)
COMERCIAL: 
(82) 99344-9999
(Dalmo Gonzaga)
O melhor conteúdo. Todos os direitos reservados. Segurança e privacidade
linkedin facebook pinterest youtube rss twitter instagram facebook-blank rss-blank linkedin-blank pinterest youtube twitter instagram
Share via
Copy link