

O pé do servidor público que tentou fraudar seguradoras após amputar o próprio membro para tentar receber uma indenização de R$ 1,5 milhão foi encontrado dentro da mochila dele, a cerca de 350 metros do local onde ele foi socorrido, na zona rural de São Gonçalo dos Campos, no interior da Bahia.
O homem disse à polícia ter perdido o membro durante um assalto seguido de sequestro. Dentro da bolsa estavam todos os pertences que ele afirmou terem sido levados pelos assaltantes, além do pé amputado.
O fato chamou a atenção dos investigadores porque contrariava a versão apresentada pelo servidor, que afirmou ter tido o celular, o relógio e outros bens roubados durante a ação criminosa.
Vanderley dos Santos Gomes atuava na cidade de Amélia Rodrigues, no Recôncavo baiano, e foi condenado a cumprir 720 horas de prestação de serviços à comunidade e efetuar o pagamento de prestação pecuniária no valor de R$ 7.590.
A situação ocorreu em julho de 2019. Em depoimentos prestados à Polícia Civil e à Justiça, Vanderley relatou que chegou à cidade de Cruz das Almas à noite, com fortes dores, por isso foi até uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade para tomar um medicamento, mas não foi atendido por falta de receita.
O homem disse que, ao sair da unidade de saúde, foi abordado por dois homens, em um carro preto, que anunciaram o assalto. De acordo com o relato, os criminosos estavam armados e teriam o forçado a entrar no veículo, onde ele foi vendado e amarrado.
O servidor público contou que teria sido agredido com socos e teve R$ 2 mil em espécie roubados, além do relógio e celular. Depois disso, ele teria sido levado a uma estrada de terra, onde os criminosos o imobilizaram e teriam amputado o pé.
Vanderley disse ainda que desmaiou devido à dor intensa e, ao acordar, se viu sozinho em uma estrada do povoado de Mercês, na zona rural de São Gonçalo dos Campos.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/V/W/jT27oNRyK3jdj2i5ZeNA/design-sem-nome-2026-06-17t141953.471.png)
Vanderley dos Santos Gomes deverá cumprir 720 horas de prestação de serviços à comunidade e efetuar o pagamento de prestação pecuniária no valor de R$ 7.590 — Foto: Arquivo pessoal
As autoridades apontaram uma série de inconsistências nos depoimentos prestados pelo servidor público. Uma delas foi justamente o fato de a mochila ter sido encontrada pela perícia a cerca de 350 metros de onde Vanderley foi socorrido. A bolsa continha todos os pertences que o homem afirmou terem sido roubados, assim como o pé amputado.
Outras questões apontadas foram ⬇️
➡️ A amputação do membro dele por parte dos supostos sequestradores. De acordo com o documento, os juízes consideraram "ilógica" a ideia da amputação, já que Vanderley não possuía inimigos e nenhum resgate foi solicitado.
➡️ A Justiça também considerou que o servidor público demonstrou uma série de esquecimentos sobre aspectos cruciais do crime, como a dinâmica exata da lesão e qual o instrumento utilizado para praticá-la. O documento aponta que ele não soube afirmar se os criminosos teriam utilizado um facão, serra ou foice.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2019/h/F/LByQ0PTP2wTb8BukAluw/whatsapp-image-2019-10-16-at-11.25.20.jpeg)
Sede do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), em Salvador — Foto: Alan Oliveira/G1
Diante do apurado, a Vara de Execuções Penais de São Gonçalo dos Campos concluiu, em primeira instância, que o servidor planejou a fraude ao contratar os seguros e posteriormente apresentar a história para receber as indenizações.
Ele foi condenado a dois anos de reclusão por estelionato, em primeira e segunda instâncias. O homem ainda tentou levar o caso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas não conseguiu.
A defesa de Vanderley havia apresentado um pedido de prequestionamento, um recurso jurídico usado para forçar os magistrados do estado a declararem expressamente quais leis foram aplicadas na decisão. Essa etapa é obrigatória para que um processo possa ser analisado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
No entanto, a Justiça da Bahia considerou que todos os pontos e leis questionados pela defesa de Vanderley já haviam sido detalhadamente examinados e debatidos ao longo do processo, não sendo necessário encaminhar o caso ao STJ.
Como o caso transitou em julgado, ou seja, não cabem mais recursos, Vanderley começou a cumprir pena em maio deste ano.
“O caso é um dos mais emblemáticos num mercado em que, só em 2024, contabilizou mais de R$ 1,1 bilhão de indenizações evitadas em golpes comprovados”, afirmou o advogado Adriano Scattini, da Advocacia Zacarelli, escritório que representou todas as seguradoras envolvidas.
Em nota, a empresa informou que o primeiro fato a chamar a atenção foi a multiplicidade de apólices contratadas pelo servidor público que não teria renda para pagá-las no longo prazo. Cada uma com uma empresa referência no setor.
“Casos como esses são detectados porque as empresas operam de maneira integrada, que é o melhor meio de combater a epidemia de fraudes contra os seguros”, explicou Scattini.
“Quem ajudou ele tinha conhecimento de técnicas cirúrgicas, o que invalidou a versão de violência e do assalto”, explicou Scattini.
