
Pai Guimarães de Ogum nega as acusações de que teria abusado de fiéis em SP — Foto: Reprodução/Redes sociais
O pai de santo Heraldo Lopes Guimarães, conhecido como Pai Guimarães de Ogum, foi denunciado na semana passada à Justiça pelo Ministério Público (MP) por ter cometido mais um estupro contra fiéis em São Paulo. Com isso, subiu para sete o número de mulheres que o acusam de crimes sexuais.
Além de denunciar o religioso por sete estupros de vulneráveis contra as vítimas, a Promotoria pediu a decretação da prisão preventiva dele para responder preso pelos crimes até um eventual julgamento. Até esta terça-feira (20) a Justiça não havia analisado as denúncias, que começaram a ser feitas no mês passado.
Segundo o MP, as vítimas contaram que o pai de santo se valia da sua posição de sacerdote espiritual para cometer os abusos sexuais. O acusado nega os crimes.
Pai Guimarães de Ogum tem 56 anos e atua na Umbanda, religião brasileira de matriz africana. Além disso, comanda um templo na Zona Sul da capital, onde, segundo o MP, aconteceu a maioria dos abusos contra as vítimas, entre os anos de 2010 e 2019. Duas delas eram menores de 14 anos na época. As outras cinco já tinham 18 anos ou mais.
Segundo a defesa do pai de santo, o líder espiritual alega inocência.
“Meu cliente nega totalmente os fatos. E entende que é uma armação das vítimas, que estão em conluio e fazendo denúncias infundadas e inverídicas. Nesse momento é isso”, disse no início do mês o advogado Marco Antonio de Castro, que defende Pai Guimarães de Ogum.
Três mulheres que dizem ter sido vítimas dos supostos abusos cometidos pelo pai de santo, contaram ter procurado o grupo de Acolhimento de Vítimas, Análise e Resolução de Conflitos (Avarc) do Ministério Público para acusar o pai de santo de se valer da sua posição de sacerdote espiritual para cometer os estupros de vulneráveis. Eles também ocorreriam em outro templo, no Centro, e até na casa do acusado.
As mulheres disseram ainda que Heraldo exercia domínio psicológico, deixando-as vulneráveis a ponto de se sentirem obrigadas a manter relações sexuais com ele, achando que estivessem se relacionando com uma entidade incorporada por ele. Elas acreditavam que aquilo fazia parte do tratamento em busca de uma cura espiritual.
"Ele disse que eu precisava de energia para poder resolver minhas questões pessoais e, que para isso teria que usar o órgão sexual dele para obter. No momento que me disse isso, ameacei levantar pra sair dali, porém, ele travou as duas pernas contra meu corpo e segurou de maneira agressiva a parte de trás do meu cabelo impedindo que eu tivesse qualquer movimento, e quando me dei conta, ele estava com o órgão sexual para fora da calça e agressivamente, me disse pra que colocasse na minha boca enquanto empurrava com força minha cabeça", falou a sétima vítima, uma mulher de 49 anos, que disse ter sofrido essa violência sexual de Pai Guimarães de Ogum em 2013, no templo que frequentava havia dois anos.
"Me lembro do nojo e do desespero que senti e então puxei minha cabeça para trás e ele voltou a forçá-la até seu órgão, quando novamente eu revidei e gritei", afirmou a mulher, que contou ter decidido procurar o grupo Avarc do Ministério Público após ver reportagens na imprensa sobre as acusações contra o religioso. "Ao ver a matéria na mídia sobre outras acusações, resolvi me manifestar para fazer esse pervertido parar, pois de maneira nenhuma merece o título nem o respeito de ser um sacerdote da umbanda."
A primeira vítima afirmou que ele "se aproveitou" dela quando tinha 12 anos, em 2011, e também declarou que o pai de santo não representa a religião.
"Heraldo Lopes Guimarães não representa a Umbanda, ele se aproveitou de mim como se aproveitou de todas nós”, disse a primeira vítima, atualmente com 22 anos, em uma carta enviada nesta quinta-feira (8) ao G1 na qual acusa o pai de santo de tê-la estuprado.
A sexta vítima falou que o pai de santo abusou dela em 2013, quando tinha procurou o templo com o então marido, com quem estava tendo problemas de relacionamento porque não queria ter um filho com ela.
"Quando foi no terceiro trabalho foi que ele [Pai Guimarães de Ogum] disse que eu precisaria ter relação sexual. Ele dizia que meu companheiro já tinha perdido o encanto e não queria mais nada comigo e que, se eu não permitisse o trabalho, o fim do meu casamento estava muito próximo, e que em seguida seria o meu fim, que eu me mataria", contou a sexta vítima, que atualmente tem 33 anos. "Aí ocorreu o primeiro estupro no terceiro trabalho que eu fiz".
Ela contou ter sido estuprada sete vezes pelo pai de santo. "Durante esses trabalhos era muito difícil. Eu tinha muita vergonha, eu tinha medo, eu me sentia suja, eu queria chorar. Você se sentia obrigada a manter relação sexual com um espírito. Aquilo não podia ser algo normal".
Após esses trabalhos, a mulher contou que a entidade incorporada por Pai Guimarães de Ogum lhe disse que ela precisaria deixar o marido e ir morar com o pai de santo, como sua mulher. A vítima falou que obedeceu e engravidou nessa nova relação com Heraldo. "Meu filho é filho do meu estuprador", falou ela, que se separou do religioso e foi morar sozinha com o filho.
Em casos de condenações, as penas para estupro podem ser de 6 a 10 anos de prisão e até 15 anos de reclusão (se for estupro de vulnerável). Quando há mais vítimas, a Justiça também costuma somar as penas atribuídas a cada uma das condenações por esse crime.
Após ter conhecimento das denúncias contra Heraldo por crimes sexuais, o Partido da Mulher Brasileira (PMB), do qual ele era presidente municipal em São Paulo, informou que decidiu afastá-lo em definitivo.
"Desejamos que ele seja processado, julgado, e, se condenado, defendemos a pena de Castração Química nos delitos de crimes sexuais", informou a nota divulgada pela assessoria de imprensa do PMB. A sigla alega que "disponibilizou para vítima assessoria jurídica para funcionar como assistente de acusação".
