O ouro começou a ser construído no início da prova. Primeiro a entrar na pista do slalom gigante, Lucas aproveitou as boas condições da neve, que ainda não carregava marcas da passagem dos atletas. O brasileiro registrou tempo de 1min13s92, 95 centésimos a menos que Odermatt, campeão olímpico em 2022. Era uma vantagem considerável, mas que não tirou a concentração de quem buscava a glória:
– Eu me senti muito conectado com meu coração. Povo do Brasil todo assistindo. Tentei esquiar do jeito que sou, e o resultado foi bom. Vou me reconectar com a minha equipe, fazer as modificações que a gente precisa preparar até a segunda descida. A neve será totalmente diferente, vai estar muito mais "quebrada". Sei como fazer isso muito bem. Vou esquiar com meu coração – disse Lucas.
De fato, o coração esteve presente na descida final. Mas a mente também fez diferença. Concentrado e focado, o brasileiro queria evitar qualquer tipo de erro, dosando o ritmo. Foi apenas o 30º esquiador a entrar na pista (os 30 melhores da primeira tentativa competiram em ordem inversa na segunda). Teve que lidar com condições diferentes, porque nevava bastante, e o percurso já carregava marcas do trabalho de outros atletas. Nada que abalasse a confiança e o desempenho de Lucas, que registrou 1min11s08, com somatório de 2min25s00.
– (A segunda descida) Foi uma guerra. Eu estava puxando, sempre tentando achar velocidade para descer num ritmo bem rápido. Como estávamos falando, a neve fica completamente diferente entre as descidas. É preciso ajustar, e eu consegui isso, encontrar um equilíbrio – explicou o esquiador.
O ouro estava garantido. Só restava comemorar. Lucas se jogou na neve e deixou a emoção tomar conta. Lágrimas incontidas de quem escreveu a história e nunca será esquecido pelos milhões de brasileiros que aprenderam sobre esqui alpino. A partir de agora, é possível dizer: o Brasil tem medalha nos esportes de neve. O Brasil tem um campeão olímpico de inverno!
Para celebrar a glória de Lucas, a organização das Olimpíadas de Milão-Cortina tocou o "Tema da Vitória". A música, conhecida por embalar o sucesso de Ayrton Senna na Fórmula 1, ganha um novo rosto, uma nova história.
A festa de Lucas, contudo, não poderá se estender muito. O atleta voltará a competir na próxima segunda-feira (16), em busca de uma medalha também no slalom. Será outra prova técnica do esqui alpino, com uma descida mais curta e portas (os obstáculos da pista) mais próximas umas das outras – aproximadamente 13 metros de distância. A disputa exigirá uma precisão ainda maior nas curvas dos esquiadores, e Lucas Pinheiro entende bem do assunto. Por isso, o brasileiro de Oslo tem chances de colocar a bandeira verde-amarela no pódio pela segunda vez.


