Kit de sobrevivência: Países da Europa adotam diretrizes, em caso de guerra com a Rússia

Por: Rádio Sampaio com O Globo
 / Publicado em 20/07/2025

Aeronaves realizam sobrevoo da Basílica de Sacré-Coeur durante desfile militar anual do Dia da Bastilha, em Paris — Foto: Thibaud MORITZ/AFP

 

Em uma praça cercada por tradicionais bistrôs, uma loja de conveniência discreta ocupa o térreo de um prédio moderno onde ficava a igreja de Billancourt até 1943, ano em que ela foi o dano colateral de um ataque dos Aliados durante a Segunda Guerra no subúrbio de Paris.

O objetivo de britânicos e americanos era destruir infraestrutura utilizada pelos nazistas que ocupavam a capital francesa, como a fábrica da Renault perto dali. Hoje, não há mais vestígios da destruição, e a maioria dos moradores passa alheia pelo local, acreditando que a guerra não voltará ao solo francês tão cedo. Mas alguns já começaram a se preparar. 

— As pessoas estão inquietas, mas não muito. Só que eu venho de um país que ainda está em guerra. Eu a vi — diz Constantin Trantik, 63 anos, nascido no Líbano, que chegou a comprar açúcar, água, mel e sardinha para estocar no começo do conflito na Ucrânia. — Talvez a guerra chegue aqui um dia.

Ameaça verdadeira

Nos últimos anos, governos europeus começaram a preparar civis para um eventual conflito generalizado no continente. Medidas como divulgar manuais com orientações de sobrevivência, estocagem de comida e expansão da rede de abrigos antiaéreos foram adotadas por vários países, desde os nórdicos, entre eles Noruega, Suécia e Filândia, até Alemanha e Reino Unido.

Na França, informa a imprensa local, o governo prepara a publicação de um livreto com orientações para que os franceses tenham em mãos um kit de sobrevivência de 72 horas e saibam o que fazer em tempos de crise. Ainda não está claro se o documento vai incluir a palavra “guerra”.

Para o pesquisador Cyrille Bret, do Instituto Jacques Delors, o risco de que a guerra chegue diretamente à França é baixo, já que o país é uma potência nuclear e a dissuasão acaba sendo uma garantia contra ataques. Mesmo assim, ele destaca que “o sentimento de ameaça é muito mais forte hoje do que há dez anos”.

Veículos militares desfilam por Paris — Foto: Paola de Orte
Veículos militares desfilam por Paris — Foto: Paola de Orte

Apesar da descrença de muitos franceses de que o país possa ser diretamente atingido pela guerra, o chefe do Estado-Maior-Geral das Forças Armadas, Thierry Burkhard, deixou claro em uma rara coletiva à imprensa na semana passada, na qual O GLOBO esteve presente, que avalia que a Rússia será uma ameaça verdadeira antes de 2030 e que Vladimir Putin designou a França como seu adversário principal — embora não haja nenhuma declaração do presidente russo nesse sentido.

Em seu discurso anual às vésperas da comemoração do dia da Queda da Bastilha, o presidente Emmanuel Macron reiterou o senso de urgência. Em um gramado tomado por representantes das Forças Armadas na sede do Ministério da Defesa, anunciou que adicionaria € 3,5 bilhões (R$ 22,5 bilhões) ao orçamento da Defesa para o ano que vem e outros € 3 bilhões (R$ 19,3 bilhões) em 2027. Macron também deu uma declaração sombria, que tomou as manchetes francesas.

— Para ser livre, é preciso ser temido. Para ser temido, é preciso ser poderoso.

Estratégia conjunta

No dia seguinte, na Avenida Champs-Élysées, esteiras de tanques rolaram sobre os paralelepípedos da tradicional via parisiense na demonstração anual de força militar que é o desfile militar do 14 de Julho. A maioria dos que assistiam aplaudiam com empolgação a série de caças Rafale que rasgavam os céus de Paris e as tropas que desfilavam de capacete e fuzis empunhados.

Veículos militares desfilam por Paris — Foto: Paola de Orte
Veículos militares desfilam por Paris — Foto: Paola de Orte

— É uma boa ideia modernizar as Forças Armadas. Precisamos estar no mesmo nível que outras nações — disse a estudante Margaux Chevalier, de 23 anos, que assistiu pela primeira vez ao desfile. — Mas não tenho medo. O mundo é instável, a França não.

Em todo o continente, no entanto, medidas estão sendo tomadas. A União Europeia quer que os cidadãos se preparem para crises, elaborando planos de emergência e estocando itens essenciais, como comida, água e remédios para 72 horas. Um post publicado nas redes sociais da comissária Hadja Lahbib mostra a responsável pelo gerenciamento de crises do bloco revelando “o que está na sua bolsa” como se fosse uma influencer: rádio, um baralho, lanterna, fósforo, canivete, dinheiro em espécie e atum em lata. A postagem diz que esse deve ser o novo modo de vida dos europeus.

No Reino Unido, a Nova Estratégia de Segurança Nacional, publicada em junho, alerta para a turbulência internacional e recomenda que cidadãos participem de exercícios para se preparar caso ocorram ataques contra o solo britânico. Na quinta-feira, o país assinou um pacto de defesa mútua com a Alemanha, uma semana após firmar um acordo semelhante com a França, no qual ambos se comprometiam a coordenar mais estreitamente seus arsenais nucleares.

A Alemanha, por sua vez, anunciou em junho a expansão da rede de bunkers e de abrigos antiaéreos, com o projeto de transformar túneis, estações de metrô, estacionamentos e porões de prédios públicos em abrigos. O governo também atualizou a diretiva geral de Defesa, incluindo alistamento obrigatório e racionamento caso uma guerra irrompa na Europa.

Pela proximidade com a Rússia, os países nórdicos carregam uma carga de preocupação extra. Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia têm uma longa tradição de cooperação militar, formalizada em 2009. Mas, nos últimos anos, a ajuda foi intensificada, com o aumento de exercícios conjuntos, treinamentos e desenvolvimento de capacidades. Individualmente, os governos também aumentam seus gastos, reavaliando políticas de segurança e promovendo o conceito de defesa total — preparo completo da sociedade para um estado de guerra.

Modelos para vizinhos

A Noruega anunciou em janeiro que planeja começar a construir abrigos antiaéreos em novos edifícios, algo que não acontecia desde 1998. Em maio, publicou sua primeira estratégia de segurança nacional, afirmando que o país enfrenta sua situação de segurança mais grave desde a Segunda Guerra. Nos últimos meses, passou a orientar a população a armazenar comida e água suficientes para sete dias.

A Suécia nomeou o seu primeiro ministro da Defesa Civil em 2022, logo após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Cidadãos entre 16 e 70 anos residentes no país são obrigados a servir em caso de guerra ou ameaça, seja nas Forças Armadas ou em serviços como resgate e combate a incêndios.

Na Finlândia, os abrigos de defesa civil são invejados pelos vizinhos e podem acomodar cerca de 86% da população. Segundo levantamento da agência AP, um abrigo público na capital, Helsinque, pode acomodar 6 mil pessoas. Ele foi projetado para resistir à precipitação radioativa de um ataque nuclear e está em estado de prontidão quase constante, com camas e pias escondidas atrás de portas à prova de explosão e um campo de hóquei subterrâneo.

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