Intervalo bíblico: prática de oração se dissemina pelas escolas e gera debate

Por: Rádio Sampaio com G1
 / Publicado em 23/03/2025

"Entregando suas vidas a Jesus', disse influenciador em uma postagem após visitar um colégio militar em Goiás — Foto: Reprodução/Instagram

Nos últimos meses, vídeos de alunos evangélicos reunidos para ler a Bíblia e cantar louvores nas escolas têm viralizado na internet. Conhecido como "intervalo bíblico" ou "devocional", o movimento tem se espalhado por colégios públicos e privados em diversos estados, impulsionado por estudantes que veem na prática uma forma de expressar sua fé no ambiente escolar.

O que começou como uma iniciativa espontânea passou a ganhar nova dimensão com a presença de pastores e influenciadores religiosos nos colégios públicos. Nas redes sociais, esses influenciadores compartilham vídeos de alunos chorando, cantando e recebendo orações, o que, segundo especialistas, pode configurar a prática de um culto religioso dentro das instituições de ensino.

O debate sobre a laicidade do Estado e os limites da liberdade religiosa nas escolas foi intensificado. Advogados explicam que alunos podem exercer sua fé, desde que não interfiram nas atividades pedagógicas, tenham autorização da gestão escolar e respeitem os demais estudantes. No entanto, a entrada de líderes religiosos nas escolas públicas pode ser inconstitucional, caso não esteja inserida na grade curricular do ensino religioso previsto por lei. A Constituição brasileira, em seu artigo 19, veda a promoção ou favorecimento de cultos religiosos por órgãos públicos.

Casos como o de Felipe Arantes, de 15 anos, que participa de um devocional em uma escola de Recife, ilustram a dinâmica dos encontros. Ele relata que as reuniões são autorizadas pelos gestores e ocorrem duas vezes por semana nos intervalos. Para Nayane Ramos, de 18 anos, que frequentou um intervalo bíblico em Natal, a prática é importante para a conexão espiritual, mas deveria permitir a participação de estudantes de outras religiões, caso desejem.

A antropóloga Denise Pimenta, da Universidade de São Paulo, ressalta que esse fenômeno não é novo, mas ganhou força com o crescimento da população evangélica e a disseminação de conteúdo religioso na internet. Para ela, é necessário analisar se o movimento ocorre de forma orgânica ou se é impulsionado por grupos religiosos com interesses políticos.

Diante do crescimento dos intervalos bíblicos, o debate permanece: como garantir a liberdade religiosa dos alunos sem ferir o princípio da laicidade nas escolas públicas? O tema segue mobilizando especialistas, educadores e a sociedade na busca por um equilíbrio entre expressão da fé e respeito à diversidade religiosa no ambiente escolar.

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