Imigrantes brasileiros no Japão estão preocupados com nova primeira-ministra

Durante campanha interna do partido PLD, Takaichi defendeu a criação de um centro de comando focado na imigração. — Foto: Reuters via BBC

 

A conservadora SanaeTakaichi, do Partido Liberal Democrático (PLD), foi eleita nesta terça-feira (21) primeiraministra do Japão, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo na história do país.

Takaichi, de 64 anos, obteve 237 votos na Câmara Baixa e 125 votos na Câmara Alta — uma maioria simples em ambas as casas.

Ela deve anunciar em breve um novo gabinete. Os membros seguirão para o palácio imperial de Tóquio para uma cerimônia de posse e realizarão sua primeira reunião de gabinete.

No início deste mês, o presidente dos EUA, Donald Trump, parabenizou Takaichi por sua vitória na corrida pela liderança do PLD, dizendo se tratar de "uma tremenda notícia".

Trump disse que Takaichi é uma "pessoa altamente respeitada, de grande sabedoria e força". Em resposta, Takaichi postou que estava "muito satisfeita" com a mensagem do líder americano, dizendo que esperava "trabalhar em conjunto [com ele] para tornar nossa aliança ainda mais forte e próspera".

Plataforma conservadora e foco na imigração

Takaichi ascende com um perfil nacionalista e conservador, em um momento em que o Japão vê crescer o número de turistas e residentes estrangeiros, e as tensões sobre imigração entram no debate político.

O tema foi colocado por ela entre suas pautas principais, propondo a criação de um centro de comando liderado diretamente pelo primeiroministro para cuidar de questões relacionadas a estrangeiros.

Em sua campanha no PLD, levantou a acusação — com base em relatos não verificados — de que turistas chutaram cervos no Parque de Nara, considerados sagrados na cultura japonesa. Políticos da oposição criticaram a fala, acusando Takaichi de fomentar a xenofobia.

Em entrevista ao jornal AsahiShimbun na véspera da eleição para comandar o PLD, ela defendeu que, ao propor um maior controle sobre estrangeiros, está respondendo a preocupações da população sobre segurança e respeito à cultura local. "Se o público está genuinamente se sentindo angustiado quanto a isso, precisamos encontrar um caminho para resolver essas preocupações. Não tem a ver com xenofobia ou exclusão."

Segundo o professor DaisukeOnuki, da Faculdade de Estudos Globais da Universidade de Tokai, ideais populistas têm ganhando força no Japão, impulsionados por políticos de direita que se manifestam contra temas como a imigração.

"Mas atrás desse medo da invasão dos estrangeiros, está um problema maior que é o enfraquecimento da economia, mais especificamente o da moeda, e a inflação. Entendo que o problema atual é resultado da política adotada pelo falecido premiê Shinzo Abe."

O conjunto de políticas econômicas conhecido como Abenomics, implantado em 2013 para tirar o Japão da estagnação econômica, não conseguiu acabar com as diferenças de renda. Muitos japoneses não têm visto aumento em sua renda nos últimos 30 anos e ainda vivem em situações econômicas difíceis. Com o sentimento de insegurança sobre o futuro, os estrangeiros se tornaram um alvo fácil de críticas, o que fez com que a ideia de "prioridade para os japoneses" fosse aceita.

"Atualmente, os partidos políticos estão adotando políticas que limitam os direitos dos estrangeiros, o que reflete essa tendência crescente", diz Onuki.

Alta de estrangeiros

Dados de junho de 2025 divulgados pela Agência de Imigração revelam que o número de estrangeiros no Japão (com vistos temporários ou permanentes) aumentou 5% em relação ao ano anterior, totalizando 3,96 milhões de pessoas — mais de 3% da população total.

O Brasil, que chegou a ocupar a terceira posição, forma hoje o sétimo maior grupo, com cerca de 211 mil residentes. O ranking é encabeçado pelos chineses (900 mil), seguidos de vietnamitas (660 mil), coreanos (409 mil), filipinos (349 mil), nepaleses (273 mil) e indonésios (230 mil).

Mesmo com essa crescente diversidade, muitos estrangeiros relatam casos de discriminação sofridos no cotidiano.

O brasileiro Sakai, engenheiro de automação industrial que vive no Japão há nove anos, relata ter enfrentado resistência para alugar um imóvel — apesar de ser filho de um japonês, ser fluente no idioma e trabalhar em uma multinacional europeia.

"Só depois de cinco recusas, consegui uma casa. Se os japoneses não mudarem essa mentalidade etnocêntrica, o país não conseguirá avançar", diz ele, que prefere não divulgar seu nome completo por receio de discriminação.

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