Gaza: Desespero, mortes e caos em invasão a armazém da ONU

Palestinos desabrigados invadem armazém da ONU, em Der el Balah (centro), e carregam sacos de alimentos - (crédito: Eyad Baba/AFP)

 

O 600º dia de guerra na Faixa de Gaza foi marcado, uma vez mais, pelo desespero. A fome extrema levou milhares de palestinos a invadirem o armazém do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU, em Deir el Balah (centro), e saquear fardos de comida.

"Hordas de pessoas famintas invadiram a instalação (...) em busca de produtos alimentares que estavam estocados para serem distribuídos", afirmou o PMA em nota, a qual pediu "acesso humanitário seguro e sem restrições para permitir imediatamente a distribuição ordenada de alimentos" na Faixa de Gaza. Pelo menos quatro pessoas morreram durante o tumulto — duas foram esmagadas e duas receberam disparos de armas de fogo.

Morador de Deir el Balah, o fotojornalista Abdulruhman Ismail testemunhou o incidente e descreveu o caos, o medo e os tiros. "Tudo foi avassalador. Fiquei o mais próximo que pude do armazém, assistindo a uma onda humana avançar em direção ao que as pessoas acreditavam ser sua última chance de sobrevivência", relatou ao Correio.

"Elas corriam com tudo o que tinham — descalças, famintas, exaustas. Algumas haviam caminhado quilômetros. Mães agarravam seus filhos. Idosos se apoiavam em bengalas. Era mais do que desespero — era puro instinto humano em movimento."

Em entrevista ao Correio, por meio WhatsApp, Ajith Sunghay — chefe do Escritório de Direitos Humanos da ONU nos Territórios Palestinos Ocupados — classificou a situação humanitária na Faixa de Gaza como "terrível".

"O armazém do Programa Mundial de Alimentos da ONU foi saqueado. Isso revela o grande desespero das pessoas. Não há comida, nada restou na Faixa de Gaza. Mesmo se você quiser comprar algo no mercado, simplesmente não existe o que comprar. - relatou.

De acordo com Sunghay, hospitais carecem de suprimentos médicos e, como se não bastasse, têm sofrido bombardeios. "Existe a possibilidade de epidemias. As pessoas são desabrigadas repetidamente. Sabemos de grupos que foram obrigados a fugir em até 18 ocasiões nos últimos 19 meses. Estão exautas, perderam familiares, estão feridas, doentes e cansadas", afirmou.

 Novo apelo do papa

O papa Leão XIV voltou a apelar pelo fim dos bombardeios de Israel à Faixa de Gaza. "De Gaza, os gritos dos pais sobem aos céus cada vez mais intensamente, enquanto agarram os corpos sem vida de seus filhos, em busca de comida e abrigo contra as bombas. Renovo meu apelo aos líderes: cessem o fogo, libertem todos os reféns e respeitem integralmente o direito internacional humanitário!", afirmou. 

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