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O Brasil enfrenta um paradoxo energético em 2025: enquanto bate recordes na expansão de fontes renováveis, como solar e eólica, o sistema elétrico é obrigado a realizar cortes na geração – conhecidos como "curtailment" – em níveis inéditos para evitar sobrecargas na rede de transmissão.
Em 2024, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) já havia cortado mais de 14,6 terawatts-hora (TWh) de produção de 1,4 mil usinas eólicas e solares, resultando em perdas financeiras superiores a R$ 1,6 bilhão, segundo a consultoria Volt Robotics. Este ano, os volumes se aproximam dos recordes anteriores, com médias de 10% da produção total afetada, e o problema persiste devido ao descompasso entre oferta abundante e demanda crescente, mas ainda insuficiente.
A causa principal é a expansão de fontes renováveis: em 2024, o país adicionou 10,9 GW à matriz elétrica, maior expansão desde 1997, com mais de 90% vindo de solar e eólica, conforme dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Em agosto de 2025, essas fontes responderam por 34% da geração total, totalizando 19 TWh – superando o recorde de 18,6 TWh de setembro de 2024. No entanto, a intermitência dessas energias, aliada a limitações na infraestrutura de transmissão (responsáveis por 65% dos cortes), gera excesso em horários de pico, especialmente no Nordeste, onde ocorreram 330 mil horas de restrições.
O ONS prioriza o desligamento de fontes variáveis para preservar a estabilidade, mas isso expõe geradoras a volatilidade nos preços do Mercado de Curto Prazo e degradação de garantias físicas.
Empresas como a Engie Brasil Energia relatam que os cortes em 2025 mantêm níveis próximos aos de 2024, com projetos individuais perdendo até 60% da produção em áreas concentradas. O setor acumula prejuízos estimados em R$ 5 bilhões, segundo executivos ouvidos pela Folha de S.Paulo, e isso freia investimentos: a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica) prevê instalação de apenas 2,8 GW em 2025, ante 5 GW em 2023.
"O excesso de oferta e subsídios desequilibrados trouxeram perdas históricas", alerta Elbia Gannoum, presidente da Abeeólica. O governo federal reconhece o desafio e age: desde 2023, leilões de transmissão somam R$ 60 bilhões em investimentos, com novo certame previsto para outubro de 2025, incluindo soluções de um grupo de trabalho do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE).
O Ministério de Minas e Energia (MME) destaca que a expansão visa mitigar riscos de apagão, mas especialistas como Raphael Ruffato, da FSET, alertam para a necessidade urgente de armazenamento e linhas de escoamento para integrar a geração distribuída, como painéis solares residenciais. Sem isso, disputas judiciais e administrativas crescem, com geradoras questionando a Resolução Normativa 1.030/2022 da Aneel.
O fenômeno reflete o sucesso da transição para renováveis – que já evitam emissões equivalentes a milhões de carros –, mas expõe gargalos estruturais. Com o consumo batendo recordes em 2025, impulsionado por ondas de calor, o equilíbrio entre oferta e demanda será crucial para evitar não só desperdícios, mas também tarifas mais altas ao consumidor.
