
Em depoimento à CPI, Teich diz que deixou governo por divergência com Bolsonaro
O ex-ministro da Saúde Nelson Teich prestou depoimento nesta quarta-feira (5) à Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia de Covid-19 no Senado Federal. A oitiva do médico oncologista começou por volta das 10h40, após ele fazer um breve resumo de seu período no governo federal e de a comissão homenagear as vítimas da pandemia.
Durante a oitiva, Nelson Teich afirmou que a saída do governo Jair Bolsonaro (sem partido) após menos de um mês se deu, principalmente, pela falta de autonomia e pela questão do uso da cloroquina, medicamento sem comprovação científica para pacientes com Covid-19 defendido pelo presidente.
Teich foi o segundo ex-ministro da Saúde do governo Bolsonaro a prestar depoimento à CPI. Nesta terça-feira (4), Luiz Henrique Mandetta foi ouvido durante cerca de sete horas no Senado.
O depoimento de Teich estava previsto para a terça-feira (4), às 14h. No entanto, o presidente da CPI da Pandemia, senador Omar Aziz (PSD-AM), adiou a oitiva em um dia após o também ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello alegar ter entrado em contato com dois servidores que foram diagnosticados com Covid-19.
A sessão foi iniciada com uma questão de ordem dos senadores Humberto Costa (PT-PE) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), subscrita pelo relator Renan Calheiros (MDB-AL), para que fosse realizada homenagem ao ator e diretor Paulo Gustavo e também a todas as vítimas da pandemia.
A sessão da CPI foi marcada por uma discussão entre senadores por conta da participação da bancada feminina nos trabalhos da comissão – a oitiva chegou a ser suspensa por alguns minutos em razão do bate boca.
A confusão começou depois de o presidente da CPI, senador Omar Aziz, permitir que a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), representando a bancada feminina, fizesse questionamentos a Teich antes dos demais membros titulares da comissão.
Apesar de não haver mulheres entre os 11 titulares da CPI, as senadoras que fazem parte da bancada feminina acompanham os trabalhos e, pelo regimento do Senado, podem fazer questionamentos depois dos membros titulares e suplentes da comissão – elas não têm, porém, direito a voto.
Aziz disse que fez uma concessão, em nome da mesa da CPI, após acordo na sessão da comissão na véspera, mas senadores governistas, como Ciro Nogueira (PP-PI) e Marcos Rogério (DEM-RO), questionaram a decisão.
Pouco antes do fim da sessão, a comissão aprovou o requerimento de convocação de nomes que ocuparam postos importantes do governo Bolsonaro, representantes de órgãos da área da saúde e empresas farmacêuticas.
Foram confirmados os depoimentos de Fábio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação da Presidência; do ex-chanceler Ernesto Araújo; do secretário de Saúde do Amazonas, Marcellus Campêlo; e de representantes do Instituto Butantan, da Fiocruz, da Pfizer e da União Química.
As sessões em que serão ouvidos acontecerão entre os dias 11 e 13 de maio.
Questionado pela senadora Eliziane Gama se sua demissão havia sido motivada, também, por um possível posicionamento negacionista por parte do presidente, Teich negou e disse que o que mais contribuiu foi a falta de autonomia, exemplificada pela questão do uso da cloroquina.
"Minha saída foi porque eu não tinha autonomia para implementar aquilo que eu achava que era certo. Todas as coisas que levavam a esse conceito tiveram peso, mas especificamente, a razão essencial, foi que eu precisava de autonomia e liderança[...] A cloroquina foi, realmente, pontual, mas existiram outras coisas que aconteceram e já foram colocadas. Minha saída, essencialmente, foi porque não teria autonomia para conduzir da forma que achava que devia."
Teich repetiu, reiteradamente, aos senadores que durante sua gestão no Ministério da Saúde não foram tomadas ações no sentido de produzir ou distribuir cloroquina aos estados para o tratamento de pacientes com Covid-19.
Ele afirmou ainda considerar que a conduta de recomendar o medicamento era, do ponto de vista técnico, inadequada em razão da falta de estudos clínicos que atestassem sua segurança e eficácia para casos do novo coronavírus.
"Quando você faz um estudo clínico, e era isso que eu recomendava na época, as pessoas são monitoradas de perto (...) O problema de trazer o medicamento para uso ambulatorial para doença leve ou moderada é que a chance de ser extrapolado para prevenção é grande e cada vez você aumenta mais o espectro de pessoas expostas de forma não controlada e com risco. Um exemplo claro que fica disso é o uso de cloroquina com nebulização",
O ex-ministro classificou, ainda, como "inadequada" a postura do Conselho Federal de Medicina de estender o uso da droga. Segundo ele, a postura do CFM pode estimular o uso de um remédio que "não tem comprovação".
