O que está em jogo
A eleição do próximo secretário-geral vai além da simples sucessão de António Guterres. O processo é encarado como uma oportunidade para a ONU demonstrar sua capacidade de recuperar parte do protagonismo perdido nos últimos anos.
Criada em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, a organização nasceu para promover a cooperação entre os países e evitar novos conflitos. O cenário geopolítico, porém, mudou profundamente nas últimas décadas.
As guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza, os conflitos no Sudão e no Haiti e o aumento da rivalidade entre Estados Unidos, China e Rússia expuseram as limitações da ONU para construir consensos e responder rapidamente às crises.
Para o cientista político Gustavo Menon, é justamente esse contexto que torna a eleição mais relevante. “O que realmente se decide é a capacidade da organização de recuperar legitimidade política em um contexto de crise do multilateralismo, guerras prolongadas e disputas entre as grandes potências. Há uma erosão da confiança no sistema internacional e pressões crescentes sobre o direito internacional.”
Segundo o especialista, a disputa também funciona como um indicativo dos rumos que os países pretendem dar à organização nos próximos anos. “A disputa pelo próximo secretário ou secretária funciona como um teste sobre qual perfil de liderança a ONU quer para 2027: mais reformista, mais diplomático ou mais alinhado aos interesses dos Estados Unidos.”
Uma ONU cada vez mais contestada
Embora continue sendo o principal espaço de diálogo entre os países, a ONU enfrenta dificuldades para cumprir uma de suas principais missões: evitar ou interromper conflitos internacionais.
Nos últimos anos, a organização foi criticada pela dificuldade de produzir respostas efetivas para guerras. Em muitos casos, decisões importantes acabaram bloqueadas dentro do próprio Conselho de Segurança.
Grande parte desse impasse está relacionada ao funcionamento do órgão. Das 15 cadeiras do Conselho, cinco pertencem aos membros permanentes – Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido –, que têm poder de veto sobre qualquer resolução.
Na prática, basta que um desses países vote contra para impedir a aprovação de medidas sobre paz e segurança internacional, mesmo que elas tenham apoio da maioria dos integrantes.
O desafio do próximo secretário-geral
Embora ocupe o principal cargo da estrutura administrativa da ONU, o secretário-geral não tem poder para impor decisões aos Estados-membros nem substituir o Conselho de Segurança.
Seu papel é conduzir negociações, atuar como mediador em conflitos, representar politicamente a organização e buscar consensos entre países com interesses muitas vezes divergentes.
“O sucessor de Guterres precisará combinar experiência multilateral, credibilidade política e capacidade de negociação em ambientes de disputa. Também será importante ter perfil de reforma institucional, disposição para enfrentar a burocracia e sensibilidade para crises humanitárias e de segurança, sem perder legitimidade entre o Norte e as demandas do Sul Global”, explica Gustavo Menon.
Segundo o cientista político, outro diferencial será a capacidade de dialogar com diferentes polos de poder sem transmitir a imagem de favorecimento a qualquer um deles. Ele também avalia que a comunicação pública ganhou peso para a legitimidade do cargo.
“A disputa atual mostra que a legitimidade do cargo já não vem apenas da diplomacia silenciosa, mas também da transparência, da paridade de gênero, da representatividade regional e da capacidade de dar sentido político à organização em meio a este período de cruzamento de crises na contemporaneidade.”