Em coletiva, Netanyahu contraria números da ONU e diz que não há fome em Gaza: 'campanha global de mentiras'

Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu concede entrevista coletiva em seu escritório em Jerusalém — Foto: ABIR SULTAN / POOL / AFP

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse neste domingo não haver fome em Gaza, contrariando números da Organização das Nações Unidas (ONU). Em seu primeiro encontro com a imprensa internacional desde que anunciou um plano para expandir a guerra e assumir o controle da Cidade de Gaza, ele também criticou a atuação de jornais como o New York Times, que, segundo ele, acreditaram piamente no que descreveu como" propaganda do Hamas".

— As únicas pessoas que hoje em dia estão deliberadamente famintas em Gaza são nossos reféns, famintos por culpa dos monstros do Hamas — declarou Netanyahu, acrescentando que Israel "vencerá a guerra com ou sem o apoio de outros" países.

O primeiro-ministro exibiu fotos de crianças desnutridas publicadas por de jornais de todo o mundo, mas com etiquetas adicionadas com a palavra "falso. Ele afirmou que o governo israelense está processando o New York Times por usar uma imagem de uma dessas crianças em sua primeira página, alegando que o menor tinha problemas adjacentes. Segundo ele, a mãe e o irmão da criança são saudáveis, e o jornal ocultou uma correção. O premier israelense ainda comparou a cobertura da imprensa em Gaza às “mentiras malignas que foram contadas sobre o povo judeu na Idade Média”.

Se Israel estivesse implementando “uma política de fome, ninguém em Gaza teria sobrevivido após dois anos de guerra”, disse ele, referindo-se às imagens de crianças esqueléticas como uma "campanha global de mentiras" contra seu país. Netanyahu, porém, admitiu que houve "privação" na Faixa de Gaza, mas culpou o Hamas e a ONU, que, segundo ele, estariam se negando a entregar suprimentos aos palestinos.

Relatório da ONU

De acordo com relatório da ONU, os hospitais da Faixa de Gaza estão sobrecarregados e trataram mais de 200 mil crianças por desnutrição aguda desde abril. Ao menos 16 menores de cinco anos morreram por causas relacionadas à fome desde meados de julho, segundo o organismo. O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA-ONU) também alertou no final de julho que o cenário de insegurança alimentar na Faixa de Gaza se compara aos vistos na Etiópia e em Biafra, na Nigéria, no século passado — duas tragédias na qual a fome foi usada como arma de guerra.

De acordo com o relatório do Classificação Integrada de Fases da Segurança Alimentar (IPC), o território palestino atingiu a fase 5 de "catástrofe humanitária", a mais grave da escala. Para alcançar tal estágio, é necessário atender a critérios como: ter 20% dos lares sem alimentos, 30% dos menores com desnutrição aguda e duas mortes diárias por fome para cada 10 mil habitantes.
Ministério da Saúde de Faza

O Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, afirmou neste domingo que cinco pessoas morreram de fome no território, elevando o número de mortos por desnutrição desde o início da guerra a 217, incluindo 100 crianças. Até o momento, mais de 61 mil pessoas foram mortas por Israel durante o conflito, de acordo com a Defesa Civil de Gaza, que registrou também 27 mortos neste domingo, incluindo 11 a tiros enquanto aguardavam distribuição de alimentos.

A situação no enclave se deteriorou a partir de março, quando Israel impôs um bloqueio total a Gaza após abandonar um cessar-fogo temporário firmado com o Hamas. Pressionado pela comunidade internacional, o governo flexibilizou parcialmente a medida em maio, quando a distribuição de ajuda humanitária passou a ser concentrada na Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês) — uma organização apoiada pelos EUA e por Israel cujo sistema de distribuição é alvo de críticas de organizações internacionais.

Segundo a ONU, mais de mil palestinos foram mortos enquanto aguardavam remessas de alimentos próximos a centros de distribuição da GHF. De maio a julho, a proporção de famílias enfrentando insegurança alimentar extrema duplicou, num período em que a média diária de veículos com ajuda humanitária foi de apenas 69, abaixo dos 500 que entravam diariamente no enclave antes da guerra.

Em julho, dois dos mais conhecidos grupos de direitos humanos de Israel, o B’Tselem e o Médicos pelos Direitos Humanos, afirmaram que o país está cometendo genocídio contra os palestinos em Gaza. Foi a primeira vez que organizações israelenses desse porte, com décadas de experiência em documentar abusos sistêmicos na região, concluíram publicamente que a guerra contra o Hamas é genocida. As declarações ocorreram em um contexto de intensificação do debate internacional sobre se a morte e a destruição na região ultrapassaram os limites morais.

'Melhor forma de acabar com a guerra'

Segundo o plano validado na sexta-feira pelo Gabinete de segurança israelense, o exército "se prepara para tomar o controle da Cidade de Gaza", no norte do território e destruída em grande parte. Este plano "não tem como objetivo ocupar Gaza, mas desmilitarizar Gaza", repetiu Netanyahu durante a coletiva deste domingo, realizada em seu escritório, em Jerusalém.

— Esta é a melhor forma de acabar com a guerra e a melhor forma de terminá-la rápido — afirmou. — Completamos grande parte do trabalho. Temos entre 70% e 75% de Gaza sob o controle militar israelense. Mas ainda nos restam dois baluartes: são a Cidade de Gaza e os campos [do centro da Faixa de Gaza]. Não temos outra opção para terminar o trabalho.

Netanyahu afirmou que será permitido à população civil "abandonar com toda a segurança as zonas de combate para ir para zonas seguras designadas" e que esta receberá provisões "em abundância". O líder israelense voltou a acusar o Hamas de saquear os caminhões com ajuda para os civis palestinos e a ONU de "se negar sistematicamente, até há pouco, a distribuir os milhares de caminhões que deixamos entrar em Gaza".

— Vamos designar corredores protegidos [para a distribuição de ajuda e] aumentar o número de pontos de distribuição de ajuda da GHF — acrescentou.

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