
Com o fim do período chuvoso em abril, o sistema elétrico já começou a se preparar para a seca, que deve encarecer as tarifas para os consumidores brasileiros. A perspectiva é de maior frequência de bandeiras vermelhas em 2026 em relação a 2025, puxado pelo El Niño, que aquece as águas do Pacífico causando seca no Norte e Nordeste.
Neste início de ano havia a preocupação com um baixo nível dos reservatórios, principalmente dos subsistemas do Sudeste e Centro-Oeste, e Sul, que concentram a maior parte do consumo de energia da população brasileira.
Atualmente, segundo os últimos dados do Operador Nacional do Sistema (ONS), o Subsistema Sudeste/Centro-Oeste está com 65,62% de sua capacidade de armazenamento, enquanto o Sul está em 46,40%. O Nordeste e o Norte operam próximo da capacidade máxima.
No fim de abril, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) confirmou o acionamento da bandeira tarifária amarela no mês de maio, após ficar com a verde nos primeiros meses deste ano. Segundo a agência, a medida ocorre devido a uma “redução de chuvas na transição do período chuvoso para o seco”.
O economista-chefe do Banco BMG, Flávio Serrano, trabalha com um cenário de bandeira vermelha 1 a partir de junho (alta média de 3,5% em relação ao mês anterior), vermelha 2 de julho a setembro (alta de 4,3%), e volta para vermelha 1 em outubro com a volta das chuvas (queda de 3,5%). Ele diz que este aumento deve pressionar a inflação nos próximos meses.
— Esperamos elevação das bandeiras nos próximos meses, fator que deve pressionar o IPCA no curto prazo. Com o retorno do período de chuvas no quarto trimestre, as bandeiras devem voltar, e nossa expectativa é registrar bandeira amarela em dezembro. Assim, não há impacto adicional das bandeiras para o ano de 2026, já que 2025 também terminou em bandeira amarela. A variação da energia elétrica será determinada, portanto, pelos reajustes periódicos. Esperamos alta de 9% para a energia elétrica neste ano — diz o economista.
Em 2023, a bandeira ficou verde durante todo ano, cenário que foi piorando nos anos seguintes. No ano passado, a bandeira ficou vermelha 2 por apenas um mês, diferentemente do projetado para este ano.
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Especialistas ressaltam que os reservatórios estão abastecidos a um nível satisfatório, com exceção do sistema Sul, que pode enfrentar dificuldades a depender das chuvas.
“Há previsão de uso de geração termelétrica complementar nos próximos meses como parte da estratégia regular de operação para garantir o atendimento da ponta de carga e reforçar a segurança energética durante o período seco. Vale ressaltar que desde março já vêm sendo utilizadas em despachos fora da ordem de mérito para preservar os reservatórios da região Sul”, diz o MME em nota, em referência ao acionamento de usinas mais caras a fim de garantir o atendimento da demanda.
O diretor de Energia Elétrica da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace), Victor Hugo Iocca, aponta que o encarecimento da conta de luz não dependerá de fatores hidrológicos. Segundo ele, o atual modelo matemático usado para a formação de preços pressiona as tarifas.
9% É a previsão de alta para a energia este ano. Projeção é do economista Flávio Serrano, do Banco BMG, que aponta pressão na inflação
— O preço alto acontece porque o nosso modelo está com padrões matemáticos muito conservadores. Este é o ponto. E isso acaba levando para o resto do ano também, a partir do momento que a gente entra no período seco, esse modelo conservador vai ficar ainda mais preocupado — diz o especialista.
O aumento da conta de luz tem sido uma das preocupações do governo, que tem uma percepção de que o poder de compra da população está corroído, o que atrapalha na popularidade da gestão.
No ano passado, a energia elétrica residencial subiu 12,31%, segundo o IBGE. Foi o subitem de maior impacto individual no IPCA, que fechou 2025 em 4,26%. O aumento só não foi maior porque o governo aplicou R$ 2,2 bilhões em descontos na tarifa a partir de um bônus da Usina Hidrelétrica de Itaipu.
Sinal de preço
Esse aumento decorre também de um descasamento entre oferta e demanda do setor elétrico atualmente. Um estudo da Thymos Energia, com base em dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico, aponta um desalinhamento relevante entre a operação real do sistema elétrico e os sinais de preço, indicando que a tendência de alta nos preços de energia nos próximos meses pode estar mais ligada a falhas na calibragem do modelo do que a uma escassez efetiva de recursos.
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— De acordo com os resultados obtidos em nossa análise, os próximos meses devem apresentar preços elevados por conta da má calibração do modelo de formação de preços e não por conta de uma necessidade real do sistema de sinalizar reservatórios baixos — diz João Carlos Mello, CEO da Thymos Energia.
O sistema elétrico brasileiro passa por um momento de excesso de energia, com capacidade de geração do sistema elétrico maior do que a demanda. Esse descasamento leva a cortes na produção de fontes renováveis, como solar e eólica, pelo ONS. A medida evita sobrecargas que possam gerar apagões.
Para manter o equilíbrio do sistema, o ONS interrompe preferencialmente parques eólicos e solares, causando perdas financeiras para as empresas, mesmo em meio à alta da energia. No ano passado, o sistema elétrico brasileiro descartou cerca de 20% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido gerada, segundo cálculos da consultoria Volt Robotics.
Esses cortes de geração levaram a um prejuízo de R$ 6,5 bilhões aos empreendimentos.
