
Foto: Felipe Dana (ap)
A Operação Contenção, deflagrada pelas polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro nesta terça-feira (28), escancarou a força e a influência do Comando Vermelho (CV) — organização criminosa que, mesmo após quase 50 anos de existência, segue em expansão pelo país. A ação, considerada a mais violenta da história do estado, foi deflagrada para conter o avanço territorial do grupo e terminou com mais de 60 mortos, 100 fuzis apreendidos e 81 presos.
Criado nos anos 1970, o Comando Vermelho nasceu dentro do Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, quando presos políticos da ditadura militar passaram a conviver com presos comuns — principalmente assaltantes de banco. A troca de experiências e a luta por direitos dentro da prisão deram origem à Falange da Segurança Nacional, que depois se transformou na Falange Vermelha e, mais tarde, recebeu da imprensa o nome que se tornaria símbolo da criminalidade carioca: Comando Vermelho.
Entre os fundadores estava William da Silva Lima, o “Professor”, que organizou regras de convivência dentro dos presídios. Após a Lei da Anistia de 1979, os presos políticos foram libertados, mas os criminosos comuns continuaram — e transformaram o ideal de união em um sistema de poder dentro e fora das cadeias.
Nos anos 1980, com a chegada da cocaína da Colômbia e a nova rota do tráfico passando pelo Brasil, o CV migrou dos assaltos a banco para o narcotráfico, consolidando seu domínio sobre favelas cariocas e fortalecendo seu arsenal. Armados para proteger suas “mercadorias”, os traficantes se tornaram um poder paralelo, financiando conflitos e corrompendo setores das forças de segurança.
Nos anos 1990, o governo tentou enfraquecer o grupo transferindo seus líderes para diferentes presídios — mas o efeito foi o oposto: o Comando Vermelho espalhou sua influência pelo sistema carcerário nacional.
Hoje, a facção atua como uma rede de alianças e franquias, presente em 25 estados brasileiros. A expansão, segundo especialistas, foi impulsionada pelas transferências para presídios federais e pela flexibilização do acesso a armas, o que facilitou o abastecimento de grupos criminosos.
O Mapa dos Grupos Armados mostra que o CV foi a única facção a ampliar seu território entre 2022 e 2023, controlando 51,9% das áreas dominadas por grupos armados na Região Metropolitana do Rio.
Além do tráfico de drogas, o Comando Vermelho passou a atuar em mercados ilegais de ouro, combustíveis e cigarros, movimentando bilhões de reais por ano. Com o uso de tecnologia de ponta, como drones explosivos e armas produzidas com impressoras 3D, o grupo se consolidou como uma potência criminal moderna, desafiando as estruturas de segurança pública.
Apesar das megasoperações e dos investimentos em repressão, o avanço da facção mostra que o Estado ainda não conseguiu retomar o controle das áreas dominadas. Como resume a pesquisadora Terine Husek, do Instituto Fogo Cruzado:
“O que se vê é o crime dominando um pouco mais de espaço. O Estado não consegue recuperar as áreas perdidas há décadas.”
