Belo lança música e fala sobre prisão: ‘Minha carreira teve percalços, mas sempre foi transparente’

Belo lança música e fala sobre prisão: ‘Minha carreira teve percalços, mas sempre foi transparente’

“Vida que segue” é o nome da música lançada por Belo nesta sexta-feira (19), a primeira após o cantor ser preso por fazer um show no Complexo da Maré, no Rio, apesar da proibição pela pandemia de Covid-19.

O título inevitavelmente soa como uma referência ao episódio. Mas a letra, na verdade, fala sobre o término de um relacionamento longo.

“Já estava gravada. Foi uma coincidência, mas não deixa de ser uma mensagem positiva para o público, depois do ocorrido”, diz ele ao G1.

O cantor está tentando seguir a vida. Além de promover o novo single, prepara o projeto “Lado B”, com composições menos conhecidas de sua discografia, além de algumas inéditas.

A música, segundo ele, tem sido uma “válvula de escape” num momento de sofrimento.

“Precisar abandonar meus compromissos e ficar afastado do calor humano dos palcos mexeu bastante comigo nesse último ano.”

Em um comunicado divulgado após a prisão, em fevereiro, o cantor justificou a retomada da agenda parcial de apresentações citando prejuízos financeiros, gerados pela paralisação no entretenimento.

Memórias antigas

A noite que Belo passou na Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, reacendeu algumas memórias antigas.

“Foi um momento muito difícil, delicado demais, do qual não gosto de lembrar ou falar, tanto por já ter estado naquele lugar anteriormente quanto por ter sido pego de surpresa.”

Ele já teve outras duas experiências em penitenciárias. Em 2002, foi condenado a seis anos de prisão, acusado de associação para o tráfico depois de, segundo a polícia, negociar drogas e armas pelo telefone com um criminoso.

Na época, ficou preso por cerca de um mês, entrou com recurso e conseguiu o direito de responder em liberdade.

O Ministério Público, então, recorreu da decisão e a 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio e aumentou a pena do artista para oito anos. Em 2004, ele foi preso novamente. Desta vez, passou três anos e oito meses na cadeia.

“Minha carreira tem um lado só, conhecido por todo mundo que me acompanha há quase 30 anos. Ela teve percalços, mas sempre foi muito transparente aos olhos da opinião pública. Não é diferente agora.”

“Sempre estive à disposição da Justiça, na qual sigo acreditando”, continua o cantor, que diz encontrar na família seu alicerce para se manter forte — ele cita nominalmente a mulher, Gracyanne Barbosa, que foi visitá-lo após a última prisão, em Angra dos Reis.

“O carinho dos colegas da música e dos fãs também ajuda. Foi bom saber que as pessoas me querem livre enquanto ouvem o que eu canto.”

Na saída do presídio, Belo foi recebido com gritos de “eu te amo” de fãs que o esperavam no local.

‘Estereótipo do pagodeiro’

A operação que prendeu o cantor foi batizada de “É o que eu mereço”, referência a uma de suas músicas.

A polícia apura a formação de aglomeração em um show, realizado numa escola estadual na comunidade da Maré. Dois produtores e um traficante também são investigados.

Belo nega qualquer ligação com atividade criminosa e diz que a apresentação foi legalmente contratada por uma produtora.

Ele faz críticas ao tratamento desigual da polícia para eventos em comunidades e os que acontecem em espaços mais elitizados. Mas diz que o problema vai além do poder público.

“Tudo passa por uma percepção de que a arte que vem das nossas comunidades é menos digna de atenção.”
“É a desigualdade social, estendida para a nossa maneira de compreender os espaços e a cultura”, avalia.

“É um problema estrutural do nosso país, que não pode ser atribuído só à polícia ou aos organismos de controle. Todos somos parte dessa mentalidade.”

Uma das consequências, na opinião do cantor, é a perseguição a gêneros de música surgidos na periferia, que fez com que o samba fosse criminalizado no início do século passado.

“O pagode convive com os reflexos desse triste passado. O estereótipo da figura do pagodeiro é uma prova disso: somos vistos como pessoas que não possuem nenhuma aptidão além da música. E há um universo de possibilidades paralelas na vida de qualquer artista”, explica.

“Para muita gente, o pagodeiro pode até fazer músicas boas, mas se limita a elas.”


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