Café especial parado em Minas Gerais
A empresária Daniele Alkmin, de Santa Rita do Sapucaí (MG), viveu um “dia desesperador” em 9 de julho, quando Trump anunciou o tarifaço. Filha de produtor rural e dona da exportadora Agrorigem, ela perdeu contratos de longa data com importadores americanos, responsáveis por cerca de 30% do seu faturamento anual.
Ela tinha programado o envio de dois contêineres, com 34,8 toneladas de café especial, mas os embarques foram cancelados após sucessivas tentativas de renegociação. O importador, que chegou a propor a divisão do custo da tarifa, desistiu diante da inviabilidade.
“Não é justo. O imposto de importação é do importador, não do exportador”, desabafou Daniele, que investiu nos últimos anos em viagens, feiras e ações de prospecção para conquistar os clientes agora perdidos.
Para não perder a safra, a empresária busca novos mercados, como Noruega e Dubai. O desafio é fechar contratos até outubro, antes que o café perca qualidade sensorial e deixe de ser considerado “especial”.
Mel 18% mais barato na Bahia
No interior da Bahia, em Cipó, o apicultor Joaquim Rodrigues também sente o peso da medida. A queda nas exportações fez o preço pago pelo mel cair cerca de 18% — de R$ 17 para R$ 14 o quilo.
Com produção anual de 20 toneladas, 90% destinada à exportação via cooperativas, Joaquim teme que os produtores da região, já dependentes do mercado externo, fiquem sem alternativa.
“Cerca de 80% do mel das exportadoras vai para os EUA. O brasileiro consome pouco mel, a gente depende da exportação”, explica o apicultor, que também preside a Associação dos Apicultores de Cipó (AAPIC).
O governo federal anunciou em agosto que pretende comprar parte da produção afetada, como o mel, por meio dos programas PNAE e PAA, mas Joaquim afirma que ainda não sabe como participar das iniciativas.
Uva do Vale do São Francisco em risco
No sertão pernambucano, o produtor Jailson Lira vive clima de apreensão. Os EUA representam 40% de seu faturamento, mas ele ainda não sabe quanto receberá pela uva quando as exportações começarem, na última semana de setembro.
Isso porque a negociação é feita em regime de consignado: as frutas são enviadas, revendidas por distribuidoras americanas e o produtor só descobre o valor após os descontos de comissões.
“O negócio é feito sempre no escuro. E agora fica mais ainda”, lamenta Jailson, que busca compradores no Brasil e em outros mercados.
Segundo ele, no entanto, o redirecionamento da produção não é simples: “Quando todos os produtores migram para um mesmo mercado, ele não consegue absorver a oferta. E os EUA pagam bem, são excelentes clientes”.
Futuro incerto
A sobretaxa americana atinge diretamente a base da agricultura familiar e dos pequenos exportadores, que enfrentam custos crescentes e dificuldades de adaptação. Para muitos, o tarifaço significou não apenas perda de contratos, mas também o risco de comprometer investimentos de anos e relações comerciais consolidadas.
“É um trabalho de vida inteira que está em jogo”, resume Daniele Alkmin.


