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Juros altos anulam efeito do Desenrola

Rádio Sampaio com SBT News
Publicado 29/08/2026

 

Os juros elevados reduzem a capacidade de programas de renegociação de produzir uma melhora duradoura na situação financeira das famílias e ajudam a explicar por que a inadimplência continua avançando mesmo após iniciativas como o Desenrola, segundo avaliação do economista Gesner Oliveira, sócio da GO Associados e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Para ele, o custo do crédito permanece alto em razão de um desequilíbrio entre as políticas fiscal e monetária, que acaba transferindo para os juros parte do esforço necessário para conter a inflação. Gesner sustenta que uma política fiscal expansionista mantém a demanda pressionada e exige uma política monetária mais restritiva, tornando mais caro o serviço das dívidas assumidas por famílias, empresas e pelo próprio governo.

A análise foi feita após o Banco Central (BC) divulgar nesta sexta-feira (28) que o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas chegou a 28,9% em junho, maior nível da série histórica iniciada em março de 2011. A inadimplência da carteira de crédito destinada às famílias também atingiu recorde em julho, aos 5,8%, enquanto o indicador considerando todo o Sistema Financeiro Nacional (SFN) chegou a 4,9%.

Gesner chamou atenção para o fato de a deterioração desses indicadores ocorrer em um momento no qual o mercado de trabalho apresenta condições favoráveis, com desemprego baixo, aumento real da renda média e dificuldades de contratação em alguns setores.

“Curiosamente essa situação é acompanhada de uma conjuntura na qual a taxa de desemprego é muito baixa, é um nível mínimo de taxa de desemprego, a renda média aumentou em termos reais e a ocupação e o aquecimento do mercado de trabalho e falta de mão de obra persistem em vários segmentos”, afirmou.
A avaliação coincide com uma preocupação manifestada nesta semana pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo. Na segunda-feira (24), durante a Febraban Tech, ele questionou por que a melhora do mercado de trabalho e da renda não se traduziu em redução do endividamento e da inadimplência e afirmou que a autoridade monetária prepara medidas para conter riscos principalmente nas modalidades de crédito mais caras e sem garantia.

“A pergunta é: por que é que, num cenário de renda crescente, desemprego caindo, a gente não viu essa renda ser revertida para reduzir esse tipo de endividamento?”, disse Galípolo.

Segundo dados apresentados por ele, o problema é especialmente visível no crédito pessoal não consignado. Em junho, os empréstimos dessa modalidade sem garantia cobravam juros médios de 149,5% ao ano, ante 27,5% nas operações que contavam com algum tipo de lastro. Galípolo também destacou que o crédito não consignado cresceu 188% desde março de 2020, para R$ 397,2 bilhões, enquanto 68,7% da carteira não tinha garantia em maio, maior proporção da série apresentada pelo BC.

Desenrola alivia, mas não resolve causa

Gesner também relacionou o cenário aos programas de renegociação de débitos promovidos nos últimos anos. Segundo ele, iniciativas que reduzem ou reoganizam dívidas podem aliviar temporariamente a situação dos consumidores, mas não impedem uma nova deterioração quando as famílias voltam a recorrer ao crédito em um ambiente de juros elevados.

“Você dá anistia, só que logo depois, com um juro tão elevado, logo depois a pessoa está novamente numa situação de inadimplência”, disse.
Ao mencionar “anistia”, Gesner se referiu a programas de renegociação como o Desenrola. A iniciativa permitiu que consumidores trocassem dívidas caras por operações com condições mais favoráveis, além de descontos e alongamento dos prazos em algumas modalidades.

O governo voltou a recorrer a esse tipo de política neste ano após lançar, em maio, uma nova versão do Desenrola voltada a famílias que recebem até cinco salários mínimos. A iniciativa prevê taxa máxima de 1,99% ao mês e permite renegociar dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal.

 

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