


Uma mulher, de 70 anos, perdeu mais de R$ 37 milhões em um golpe envolvendo uma falsa plataforma de investimentos, segundo a Polícia Civil do Rio Grande do Sul. O caso deu origem a uma investigação que levou à operação Criptoabate, nesta quinta-feira (13), contra suspeitos de integrar uma organização criminosa investigada por estelionato mediante fraude eletrônica e lavagem de dinheiro.
Entre os alvos de mandados de prisão, estão três donos de empresas que trabalham com movimentação de criptoativos, por onde o dinheiro teria passado.
De acordo com a polícia, os investigados se passavam por funcionários de uma empresa identificada como TDASX, que fechou após o início das investigações. O g1 tenta contato com os responsáveis pela TDASX, mas não os havia localizado até a última atualização da reportagem.
O diretor do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DERCC), delegado Eibert Moreira Neto, afirma que a ideia é quebrar o esquema a partir dos líderes:
"Nossa operação visa atingir não só a camada operacional do esquema, que são pessoas que induzem a vítima ao erro, mas também atacar a camada de cima, que dá os meios para que o crime aconteça", diz.
O advogado que representa a vítima, Bernardo Regueira Campos, diz que foi um longo período até a aposentada reconhecer que havia caído em um golpe. Isso porque, inicialmente, ela parecia estar tendo lucro e a plataforma mostrava rendimentos. Ela só identificou o golpe quando o dinheiro não retornou.
"Só veio se dar conta realmente depois que pediu o saque, o saque não foi feito. Davam a entender e faziam ela acreditar de que ela tinha causado a perda do dinheiro, que tinha feito alguma aplicação que tinha rendido pouco, ou no caso tinha tido um prejuízo, e por isso que não teria o que sacar. Então foram ali algumas semanas até cair a ficha de que tinha sido de fato vítima de um golpe".
De acordo com a investigação, a vítima foi incluída em grupos de mensagens que simulavam comunidades legítimas de estudo e investimentos no mercado financeiro.
Nos grupos, havia supostos especialistas, assistentes e outros participantes que interagiam de forma coordenada para criar uma aparência de profissionalismo e segurança.
Os investigados apresentavam análises de mercado, orientações financeiras e resultados aparentemente positivos. Com isso, a vítima era convencida de que os investimentos estavam dando lucro e passava a fazer aportes cada vez maiores.
Conforme a polícia, quando a aposentada tentou retirar o dinheiro, porém, os saques teriam sido bloqueados. A partir daí, começaram a surgir novas cobranças, apresentadas como taxas, impostos ou valores necessários para liberar o patrimônio.
A cada pagamento, uma nova justificativa era apresentada, levando a vítima a continuar transferindo dinheiro na tentativa de recuperar os valores já investidos.
A estratégia é conhecida internacionalmente como "pig butchering", ou "golpe do abate de porcos". Nesse tipo de fraude, os criminosos constroem gradualmente uma relação de confiança com a vítima antes de induzi-la a entregar quantias cada vez maiores.
A polícia identificou pelo menos 140 potenciais vítimas inseridas em ambientes digitais relacionados à mesma dinâmica, além de registros de fraudes semelhantes associados às estruturas financeiras investigadas.
Outra frente da apuração envolve possíveis conexões com pessoas ligadas ao sistema bancário. A gerente de um tradicional banco brasileiro está entre os alvos de prisão.
Isso ocorre após a investigação descobrir que, dos 25 primeiros destinatários empresariais dos valores transferidos pela principal vítima, 24 tinham contas em uma mesma instituição financeira, segundo a Polícia Civil.
Depois de entrar nas primeiras contas bancárias, os valores eram distribuídos para outras empresas e intermediadores financeiros até serem transformados em criptomoedas.
A Operação Criptoabate é resultado de uma investigação que durou um ano e seis meses e envolveu análise bancária e telemática, inteligência financeira, técnicas de investigação cibernética e rastreamento de ativos virtuais.
A partir de agora, a polícia pretende analisar o material apreendido, identificar novas possíveis vítimas e envolvidos e localizar bens e valores que possam ser recuperados.
A Polícia Civil alerta para promessas de rentabilidade extraordinária, plataformas de investimento sem credenciais verificáveis e, principalmente, pedidos de novos depósitos para liberar dinheiro que já teria sido investido.
