O funeral do aiatolá Ali Khamenei começou nesta quinta-feira (2), informou a imprensa estatal do Irã. A cerimônia ocorre quatro meses após a morte de Khamenei, em um ataque de Israel e dos Estados Unidos.
Os clérigos que comandam o Irã preparam dias de cerimônias fúnebres para Khamenei. A expectativa é reunir multidões para demonstrar apoio à República Islâmica e reforçar que o fervor revolucionário do regime continua vivo.
Após as cerimônias em ambientes fechados, estão previstas grandes procissões em Qom e Mashhad, além de homenagens no Iraque.
“A grande participação do público na procissão fúnebre do líder martirizado e dos outros mártires será, na prática, mais um referendo para a República Islâmica”, declarou o aiatolá Mohammad Saidi, líder da oração de sexta-feira em Qom, à mídia estatal.
O governo quer mobilizar milhões de apoiadores em cidades de todo o país. Para isso, organizou transporte, hospedagem e alimentação. O objetivo é exibir a força do Estado teocrático depois de sobreviver ao que considera uma guerra existencial.
Caixão de Ali Khamenei em cerimônia fúnebre no Irã, em 2 de julho de 2026 — Foto: Mehr News
A morte de Khamenei e a sucessão do filho, Mojtaba, como terceiro líder supremo do Irã marcam um momento histórico nos 47 anos da República Islâmica. Mojtaba, que ficou gravemente ferido no ataque que matou o pai, não aparece em público desde o início da guerra.
Apesar da demonstração de unidade planejada pelo regime, analistas afirmam que o apoio popular à República Islâmica vem enfraquecendo.
Muitos iranianos estão cansados de décadas de sanções que sufocam a economia do país. Também criticam a repressão imposta em nome da Revolução Islâmica de 1979, um episódio do qual apenas os mais velhos, em uma população majoritariamente jovem, têm lembranças.
Durante os protestos contra a inflação realizados em dezembro e janeiro, manifestantes chegaram a gritar palavras de ordem pedindo a morte de Khamenei. Segundo relatos, as autoridades reprimiram os protestos com tiros, deixando milhares de manifestantes feridos.
Nos primeiros dias da guerra, quando começaram a circular notícias sobre a morte de Khamenei, moradores de Teerã relataram sons de comemoração vindos de casas e apartamentos em algumas regiões da cidade.
Agora, a capital vive um clima de tensão e silêncio. O cenário contrasta com o funeral do aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da Revolução Islâmica. Na época, milhões de pessoas acompanharam o cortejo em prantos. Parte da multidão chegou a subir na ambulância que levava o corpo.
Em meio ao tumulto, uma das pernas de Khomeini apareceu sob o sudário, enquanto integrantes da Guarda Revolucionária tentavam controlar a multidão.
Samira, de 35 anos, mulher de um dono de restaurante em Teerã, disse que a família não pretende participar das cerimônias e planeja deixar a cidade por uma semana.
“É como se a vida tivesse parado e houvesse basijis por toda parte”, disse ela, referindo-se à organização de milícia voluntária afiliada à Guarda Revolucionária.