
Migrantes venezuelanos formam filas para regularização no Brasil em agosto de 2025 — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
O resultado das eleições municipais na Venezuela, realizadas em julho e marcadas por ampla vitória do partido de Nicolás Maduro, desencadeou um novo aumento no fluxo de migrantes que cruzam a fronteira em Pacaraima (RR) rumo ao Brasil. A Cáritas Brasileira, que dá apoio humanitário aos recém-chegados, registrou em agosto a maior média diária de atendimentos desde a instalação da sua unidade na região, em maio de 2024.
De acordo com os dados, a média de 350 atendimentos diários a novos migrantes mais que dobrou em relação ao primeiro semestre, quando eram 150. Considerando também os já instalados no Brasil, foram 17.212 atendimentos até o dia 20 de agosto, quase 6 mil a mais que em todo o mês anterior.
A cena registrada na fronteira é de longas filas para regularização migratória, com famílias inteiras chegando a todo momento. Todos relatam desânimo com a política venezuelana e esperança de recomeço no Brasil.
O eletricista Moises Mata, 29, de El Tigre, contou que resistiu a deixar o país até perder o emprego: “Depois das eleições, ficou claro que nada vai mudar. Não vejo esperança política no meu país.”
A dona de casa Dexys Sapienza, 40, de San Felix, atravessou com as filhas adolescentes: “Tudo agora é em dólar, e o valor sobe duas vezes por dia. Ficou impossível manter a família. Quero que minhas filhas tenham oportunidades no Brasil.”
Já o pedreiro Edgar Suarez, 56, também de San Felix, decidiu migrar após apoio de parentes: “As eleições mostraram que nada vai mudar. O principal para mim agora é ter emprego e uma casa no Brasil.”
Idosos também fazem parte do fluxo. O aposentado Alex Rodriguez, 70, de Puerto La Cruz, busca tratamento de saúde e reencontro familiar: “Tenho catarata e na Venezuela não cuidam disso. Preciso da ajuda da minha família e quero me tratar aqui.”
O espaço Padre Edy, da Cáritas, ao lado do posto de regularização migratória da Operação Acolhida – força-tarefa liderada pelo Exército – oferece gratuitamente duchas, banheiros, lavanderia, fraldário e água potável. Outras três instalações em Pacaraima e Boa Vista também registraram aumento.
Segundo Luz Tremaria, coordenadora da Cáritas em Pacaraima, a crise política é fator central: “Após as eleições, o fluxo cresceu ainda mais. Muitos relatam falta de esperança, já que o governo de Maduro se manteve.”
O governo brasileiro informou, por meio da Casa Civil, que a Operação Acolhida tem protocolos prontos para responder a aumentos súbitos na entrada de migrantes.
Desde 2015, mais de 1 milhão de venezuelanos entraram no Brasil, a maioria por Roraima. Somente no primeiro semestre de 2025, o país recebeu 96.199 migrantes da Venezuela, 53% deles pela fronteira roraimense.
Para o pesquisador João Carlos Jarochinski Silva (UFRR), o atual perfil migratório é marcado por reunião familiar: “Quem chegou antes e conseguiu se estabelecer passou a trazer filhos, pais e netos. Esse processo explica o fluxo cada vez mais composto por famílias inteiras.”
Na fronteira, o sentimento é de desesperança com a Venezuela e de recomeço no Brasil, onde muitos já encontram familiares e esperam oportunidades de trabalho e estudo.
