
Foto: BigStock
O governo federal apreendeu produtos suspeitos de serem "café fake", também conhecidos como "cafake". A ação, realizada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), ocorreu em dois estabelecimentos após denúncias de fraude na comercialização do café. Além dos produtos finais, a matéria-prima utilizada também foi apreendida para análise.
O ministério investiga se todos os produtos comercializados como "pó sabor café" podem ser enquadrados na legislação vigente, em categorias como preparados sólidos ou misturas para preparo de alimentos, ou se são considerados fraudes.
As autoridades não divulgaram os nomes das marcas apreendidas nem a localização dos estabelecimentos fiscalizados. No entanto, a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic) informou que identificou esse tipo de produto sendo vendido em São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
Durante a fiscalização, foram encontradas irregularidades nas matérias-primas utilizadas, como cascas, grãos defeituosos e aromatizantes. As embalagens indicavam o uso de polpa do café como ingrediente, mas esse elemento não foi identificado na apreensão.
Segundo Hugo Caruso, diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal (Dipov), os produtos ainda estão em análise laboratorial, e somente após os resultados será possível determinar se são fraudes. As empresas fiscalizadas alegam que informam na embalagem que se trata de "pó sabor café" e que possuem autorização da vigilância sanitária.
Com o aumento do preço do café tradicional, os produtos conhecidos como "cafake" têm se espalhado pelos supermercados. Essas embalagens imitam marcas tradicionais e trazem descrições discretas, como "pó para preparo de bebida sabor café". Além disso, o preço mais baixo atrai consumidores desavisados.
A legislação brasileira permite a comercialização de misturas para bebidas e preparados sólidos, como cappuccinos e refrescos. No entanto, há dúvidas sobre o enquadramento do "pó sabor café". Alguns desses produtos informam a presença de polpa de café, mas a Abic alerta que a polpa está colada à casca do fruto e não pode ser completamente separada, levantando questionamentos sobre sua real composição.
Além disso, a lei permite até 1% de impurezas naturais na composição do café, mas proíbe a presença de elementos estranhos como grãos de outras espécies, corantes e açúcar. Alguns "cafakes" podem conter cevada ou milho como base, além de aromatizantes, tornando-se ultraprocessados e diferentes do café convencional.
Especialistas alertam que a embalagem desses produtos pode confundir o consumidor. Algumas marcas utilizam cores, fontes e imagens semelhantes às de marcas tradicionais, além de nomes similares, como no caso do produto "Melissa", que lembra a marca Melitta.
A nutricionista Mariana Ribeiro, do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), compara essa situação com a diferença entre iogurte e bebida láctea: ambos são permitidos, mas a composição é distinta, e o marketing pode levar o consumidor a uma interpretação equivocada.
O Mapa segue investigando o caso e aguarda os laudos para determinar possíveis sanções às empresas envolvidas.
