
João Marcelo Lyra desenvolveu lente para tratamento da catarata com design inovador, em formato de espiral — Foto: Reprodução/Instagram
Um oftalmologista alagoano se juntou com outros pesquisadores das áreas da física ótica e da computação para colocar em prática a ideia de criar uma lente intraocular para tratamento da catarata que supera os efeitos negativos enfrentados por pacientes que usam as lentes disponíveis no mercado atualmente.
Inspirado pela capa de um livro de filosofia, João Marcelo Lyra pensou em desenvolver uma lente com um design inovador, em formato de espiral - diferente das lentes com formato concêntrico, que geralmente são usadas no tratamento da catarata.
O resultado foi a Galaxy. A lente já está sendo comercializada na Europa e a expectativa é de que esteja disponível no Brasil no ano que vem.
"A gente conseguiu mostrar a capacidade da pesquisa brasileira de inovar com o foco em resolver problemas da humanidade. Um deles foi esse: garantir qualidade de visão", destaca o oftalmologista.
Catarata é a opacidade parcial ou total de uma lente natural que temos dentro do olho, chamada de cristalino. Trata-se de uma lente biconvexa e transparente, que tem como principal função focar os raios de luz que entram na retina.
Segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), estimam-se que haja 120 mil novos casos por ano no Brasil, sendo que a maioria das pessoas acometidas são idosas. A catarata já afetou famosos como a apresentadora Ana Maria Braga, o jornalista William Bonner, e o ator Wagner Moura.
A doença é, atualmente, a principal causa global de cegueira. O tratamento para a doença é a facoemulsificação, uma técnica cirúrgica que utiliza ultrassom para remover o cristalino do olho e substituí-lo por uma lente intraocular.
"O médico, junto com o equipamento, faz uma incisão microscópica de dois milímetros. A ponteira vai entrar no olho e a catarata vai ser dissolvida em fragmentos e aspirada. O equipamento irriga, aspira e dá um ultrassom de forma controlada. Depois da retirada da catarata, é implantada uma nova lente intraocular, que já vai ter o grau do paciente", detalha João.
João explica que nas cirurgias de catarata geralmente são usadas lentes intraoculares multifocais que têm formato concêntrico, em camadas dispostas uma dentro da outra como círculos de um alvo (cada uma projetada para ajudar a ver a diferentes distâncias - perto, intermediário e longe).
Segundo o médico, até 10% dos pacientes que recebem essas lentes podem ter halos, que são auréolas que se formam em torno de fontes de luz, como postes e faróis, o que atrapalha a visão noturna. Além disso, essas lentes diminuem o contraste, o que faz com que alguns pacientes sintam alguma diminuição das cores.
"A lente Galaxy muda totalmente esse paradigma. Em primeiro lugar, o design dela não é em anéis concêntricos, mas sim em espiral refrativo, o que acaba ocasionando uma melhor sensibilidade ao contraste, garantindo mais qualidade de visão para o paciente tanto em termos de cores como, principalmente, na visão noturna".
João afirma que estudos demonstraram que a lente Galaxy proporciona uma diminuição de 60% dos efeitos negativos quando comparada com a lente trifocal que costuma ser utilizada atualmente.
"Os pacientes que foram tratados com essa tecnologia referem uma independência do uso do óculos e uma excelente qualidade de visão noturna e do contraste. É a única lente do mercado que entrega a quantidade de visão em termos de visão nítida de perto, intermediário e de longe com um corredor de visão longo. O paciente também refere uma adaptação rápida para que possa dirigir, por exemplo, e executar tarefas principalmente à noite sem as interferências dos halos".
