Por: Vanessa Santos

A esperança do povo sertanejo vem do céu, através de muita fé. Olhar para as nuvens e conversar com Deus faz parte do ritual de agradecer, pedir bênçãos e também verificar se há algum sinal de chuva.

Em uma terra seca, de sol escaldante, a água que vem do céu derrama seus milagres para o plantio, a fartura na mesa e a sobrevivência de um povo que é ‘marcado, mas muito feliz’. No mês de março, essa alegria é ainda mais presente com a chegada das águas de março e do tão esperado 19 de março, dia de São José.

Esposo da Virgem Maria, pai adotivo de Jesus Cristo, São José é o protetor da Sagrada Família, escolhido por Deus para ser o patrono Universal da Igreja e também o padroeiro dos agricultores familiares. Em Feira de Santana, seu nome foi dado ao distrito de São José das Itaporocoas e o seu dia é muito comemorado principalmente pelos moradores da zona rural.

Muitos devotos se reúnem neste dia para celebrar o dia do santo e também esperar a chuva para começar a plantar. Diz a tradição que se chover neste dia o ano será muito bom e frutífero e nessa expectativa muitos católicos ficam firmes na oração e na celebração do dia 19 de março.

Na comunidade de Pau Ferrado, distrito de Humildes em Feira de Santana, a tradição de rezar para São José foi passada de pais para filhos. Dona Silvéria Sacramento de Jesus, de 102 anos, que sempre foi muito devota e católica, passou todos os seus valores religiosos para a filha Maria José Pereira da Conceição, de 59 anos, carinhosamente conhecida na região como Dona Zezé.

A agricultora, que também leva o nome do santo na sua identidade, desde os cinco anos de idade aprendeu a fazer a reza para São José. Na sua casa, todo dia 19 de março é sempre cheio de gente, de alegria e de fé.

“Sempre foi uma tradição em minha família. Meu pai era rezador e minha mãe sempre foi muito devota do santo. Neste dia a gente reúne a família inteira e reza para ele. Só de netos tem uns 30 e bisnetos uns 40. A gente reza e depois cada um planta um pouquinho para esperar a chuva. Quando chove é muita alegria e muitas bênçãos”, diz

Dona Zezé comenta que São José é um santo muito forte e é ele que intercede junto a Jesus para que chova na plantação. No sertão esse momento é muito esperado e faz parte da cultura da história das famílias. Neste dia os agricultores da região de Pau Ferrado plantam milho, feijão, mandioca, amendoim, fazem suas hortas e plantam até flores para enfeitar os jardins e os terreiros de casa.

O santo que traz chuva para a terra arada traz também ânimo e coragem para a comunidade. Muito respeitado por Dona Zezé, São José tem seu lugarzinho em um altar que fica na estante da sala de estar da agricultora. Nesse espaço estão também Santo Antônio, Sagrado Coração de Jesus e a Virgem Maria.

Para ela, a fé em Deus e nos santos é o que lhe dá força para trabalhar e seguir em frente. A fé que foi herdada de sua mãe, Dona Silvéria, e que no auge dos seus 102 anos, com plena lucidez e um pouco de perda de audição, ainda reza como ninguém o canto de São José.

O coro “Meu divino São José/ Aqui estou em vossos pés/Nos dê chuva com abundância/ Meu Jesus de Nazaré/ Vou pedir a São José uma fé e muita devoção/Num instante e numa hora deixa a chuva de Deus no chão”, carregado de religiosiodade e emoção já começa a ser balbuciado pelos lábios dos pequenos netos na sala da casa da avó. Mostram que a tradição está viva e latente no seio familiar e enchem de orgulho a matriarca.

A agricultora afirma ainda que está tudo pronto para comemorar o dia do santo. As sementes para o plantio já estão reservadas e para participar da reza não precisa convite. Basta chegar e se apertar na pequena sala de casa para entoar o cântico de São José. Para a merenda não pode faltar o amendoim cozido, que foi colhido do quintal de casa e, se Deus quiser, com a chuva do dia 19 de março, em breve ele será para comer, para dar e vender. A fartura de alimentos chegará à casa de Dona Zezé, assim como chegam tamanha alegria e gratidão.


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